Queria
saber o que se passa na cabeça da assessoria jurídica de deputados e senadores
da nossa suposta oposição. A União (e não jair bolsonaro, pois este tem foro
privilegiado) deveria ser acionada judicialmente a cada vez que o miliciano
abre a boca – ele ou qualquer integrante de sua milícia. "São os índios
que botam fogo na floresta". "Ah, é? Vai ter que provar". Tome
ação na justiça. "Homossexuais têm famílias desajustadas". Vai ter
que provar. Ação na justiça. "Essa gripe é para covardes". Prove.
Ação na justiça. E por aí vai. Mas nossa oposição, historicamente, tem medo de
se posicionar de forma radical. Vêm sempre com a conversinha do
"diálogo". Se enchermos esse governo (através da União, que pode ser
acionada em primeira instância) de ações judiciais, o mínimo que se pode
conseguir é arrancar um pouco da grana que eles querem dar para os bancos. Em
tempo: por que a demônia Sadama Servel não está presa, após expor a
privacidade, a integridade física e moral e a vida mesmo de uma criança de 10
anos? O foro por prerrogativa de função é anulado em caso de crime flagrante;
onde estava a oposição no momento do ato criminoso? Ah, sei: os assessores
jurídicos estão sempre muito ocupados em livrar os parlamentares da Polícia
Federal.
domingo, 27 de setembro de 2020
FECHANDO A BOCA DA MILÍCIA
sexta-feira, 5 de junho de 2020
NOSSAS OLIGARQUIAS FAMILIARES
por Fernando Lomardo, O Apontador
O Pará tem Barbalho. O Maranhão tem
Sarney. Minas Gerais tem Neves. Alagoas tem Calheiros. São Paulo tem Covas. O
Rio de Janeiro tem Maia.
A política brasileira é composta por
feudos que se eternizam no poder. O coronelismo supostamente ultrapassado, tão
detalhadamente descrito por Jorge Amado e Érico Veríssimo, troca de terno ao
longo das décadas e permanece comandando o jogo apodrecido do fatiamento do
dinheiro público. Pais elegem seus filhos que reelegem seus filhos que
contratam seus filhos que nomeiam seus filhos, e parentes e amigos entram junto
de roldão na festa do fisiologismo democrático.
A foto que ilustra o artigo é emblemática
dos conluios entre políticos e famílias poderosas na divisão dos dividendos do
parasitismo. Foto do saudoso Jornal do Brasil, janeiro de 2002. O atual
presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, (recentemente mencionado em
delação do dono da Gol Linhas Aéreas) em descontraida balada com amigos. Seu
pai, César Maia, era na ocasião prefeito do Rio de Janeiro, em seu segundo
mandato. Foram três no total, além de Senado, vereança, etc.
Os amigos de Maia filho: Rick Amaral,
filho de Ricardo Amaral, o “rei da noite” (proprietário de boates lendárias,
como New York City, Pappagaio’s, Hippopotamus, etc); e Kim Peixoto de Castro.
Aqui está uma das chaves do cofre.
A família Peixoto de Castro foi uma das
mais ricas do país, proprietária, entre outras coisas, da Refinaria de Manguinhos.
Por algum motivo entrou em processo de recuperação judicial. Um de seus
“varões” é investigado na Lavajato. Por esse motivo uma das acionistas do
grupo, a Sky Investment, entrou com ação judicial para afastar o patriarca
Paulo César do Conselho Administrativo. Outros dois membros da família foram
acionados pelas ex-esposas por não pagamento de pensão aos filhos. Tutte buona
gente.
A inofensiva nota social foi publicada na
coluna de Márcia Peltier, que foi casada com Carlos Arthur Nuszman – aquele que
foi preso por roubar dinheiro da Olimpíada do Rio, lembram?
É o círculo infinito de nosso sistema
político-empresarial. Grandes políticos são amigos de grandes empresários que
são amigos de grandes jornalistas que são amigos de grandes politicos que são
amigos...
Mantendo o movimento do círculo, famílias
que se perpetuam ad aeternum. Pai que elege filho que nomeia amigo que contrata
outro amigo... e la nave va.
O Pará tem Barbalho. O Maranhão tem
Sarney. Minas Gerais tem Neves. Alagoas tem Calheiros. São Paulo tem Covas. O
Rio de Janeiro tem Maia.
O Brasil inteiro, no momento, tem
Bolsonaro.
quarta-feira, 22 de abril de 2020
ALGUÉM ESTÁ REALMENTE PENSANDO EM MUDANÇA?
por Fernando Lomardo
Ator, Produtor Cultural e Arte-Educador
Uma preocupação pra lá de curiosa vem
ocupando nosso diligente noticiário. Uma parte dele (excetuando-se as emissoras
que apoiam bolsonaro e portanto não enxergam um palmo à frente do nariz) vem
perguntando se a epidemia de Covid-19 poderá alterar nosso comportamento em um
futuro próximo. Intelectuais do momento, como Leandro Karnal e Mário Sérgio
Cortella, são requisitados para explicar, com seu arcabouço acadêmico, se a
peste chinesa vai trazer no rescaldo algum novo paradigma ético na conduta do
megavírus conhecido como Civilização.
Perplexo em meu continuado isolamento
social (eu que nunca fui muito de aglomeração, tendo sempre preferido um livro,
uma cachaça, minha família e meus gatos), me pergunto o por quê da pergunta. A
alta taxa de mortalidade, os sepultamentos em covas coletivas, a tensão
constante pelo risco do contágio, a paralisação da mobilidade e dos serviços, a
economia em frangalhos, poderão gerar um Novo Homem, uma Nova Sociedade, um
Novo Comportamento, uma Nova Ética? Ainda não entendi quem foi o mágico que
tirou de qual cartola essa pergunta inútil.
A gripe espanhola seria apenas um dos
inúmeros exemplos. Depois de matar sei lá quantos milhões de pessoas há cem
anos, qual foi o saldo ético disso? Alguém citaria algum? Podemos recuar ou avançar no
tempo. As inúmeras pestes que assolaram a Europa na Idade Média e no
Renascimento. A febre amarela no Brasil, entre o XIX e o XX. As várias gripes
que a China tem exportado nos últimos 20 anos. Isso mudou alguma coisa? Trouxe
uma nova ética? Um novo recomeço?
Por quantas guerras a humanidade já
passou? Quantos milhões, talvez bilhões de mortos? E de feridos? Mutilados? Aleijados?
Famílias destroçadas? Cidades destruídas? Economias paralíticas? Condições de
sobrevivência interditadas, interrompidas, impossibilitadas? E o que foi que
mudou após tudo isso?
Os exemplos podem ser globais ou
circunscritos. Mal se passara um quarto de século que a Alemanha havia
provocado a Primeira Guerra Mundial, quando arrumou logo a segunda. Tudo bem,
eram outros agentes, mas era o mesmo país, e sobretudo era a mesma “Humanidade”.
Não deu pra aprender nada com 1914-1919? Não, não deu. Assim como não deu pra
aprender nada com 1939-1945.
Os Estados Unidos melhoraram alguma coisa
após as guerras da Coréia e do Vietnã? Ou apenas passaram a escolher adversários mais fracos
(Granada, Iraque, El Salvador) para vilipendiar?
O Brasil tem, ao longo de sua trajetória
de 500 anos de “civilização”, uma das mais devastadoras desigualdades socio-econômicas
da história da humanidade. Essa desigualdade tem como consequência, sabemos
todos, uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo. Os milhares de
mortos anualmente pela violência urbana, em números superiores a muitas
guerras, trazem algum novo comportamento? Alguma nova ética? Compreendemos a
necessidade de coesão e empatia, ou continuamos cagando para o vizinho e
jogando o lixo na porta dele?
A renitência da humanidade é ampla, geral
e irrestrita. Sabemos que estamos errados, sabemos por que e sabemos como. Mas
corrigir comportamentos nocivos é, isso sim, um ato de verdadeiro esforço e
coragem. Não é qualquer um que consegue. A grande maioria nem tenta. Isso vale
para o Brasil, para o Mundo e, se houver seres humanos em Marte, vale para eles
também.
Podem tirar o pocotó da chuva. A
humanidade não vai mudar NADA. O
brasileiro não vai mudar NADA. Nossos
políticos não vão mudar NADA. Todos
continuarão medíocres e idiotizados, pensando no próprio estômago e no Flamengo,
em amarrar o burro na sombra e se dar bem de alguma forma. Nossos três poderes
continuarão usando seus cargos para desviar dinheiro e para criar leis que
favoreçam a eles mesmos. Nosso grande empresariado continuará bolando novas
formas de extorquir dinheiro, sempre em nome do mercado e com o apoio dos três
poderes. A classe média continuará desorientada e burra, repetindo clichês do
tipo “onde nós vamos parar”? Os favelados, de quem tanto se fala hoje,
coitadinhos, continuarão preocupados em rebolar a bunda no baile funk. A
Imprensa continuará colocando o senso comum acima da inteligência. A Educação
continuará uma merda, a Saúde continuará uma Doença, o Meio Ambiente será
gradativamente exterminado e as crianças continuarão não existindo – apenas
quando se tornarem “o adulto de amanhã”, espertalhões, metidos a malandro,
barrigudos e safados e repetindo, com um sorriso pretensioso, que “todo mundo
rouba, eu vou roubar também”, pois isso é tudo que nossa sociedade consegue
ensinar.
O Covid-19 é só mais uma doença. Terrível,
tentacular, indiscriminada, tão assustadora quanto o câncer e a AIDS já o
foram. Mas é apenas mais uma. Não é a pior. Nossa pior Doença somos nós mesmos.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
NÃO DÁ PRA ACENDER DUAS VELAS
por Fernando Lomardo
“O
Inquisidor: As cidades marítimas pedem os mapas de Galileu com urgência.
Vai ser preciso ceder, são interesses materiais.
O Papa: Não se pode condenar
a doutrina e aceitar os mapas.
O Inquisidor: Como não? Não
se pode é fazer outra coisa!”
Da peça teatral "Vida de Galileu", de Bertolt Brecht
Depois de se escandalizar com os
xingamentos diários de Jair Bolsonaro, de gargalhar com o cocô na boca do
presidente, de se estarrecer com o ministério mais inqualificável da história
do país, de se constranger com as demonstrações ininterruptas de ignorância e
burrice, de se aviltar com as inúmeras suspeitas de corrupção e de outros
crimes praticados pelo chefe do executivo e por sua família, agora o Brasil
assiste, mais uma vez perplexo, ao pronunciamento do secretário de cultura
Roberto Alvim.
Para
além do tom superlativo-pentecostal que infecta o discurso de todos os que
participam ou estão ligados a este governo, com as costumeiras tolices sobre
fé, pátria e deus, etc, o pronunciamento traz implícitas a agressão e a ameaça
constitutivas dos regimes totalitários, em formulações do tipo “a cultura será
o que queremos ou não será nada”. Apesar de promover um plágio descarado de um
texto de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Adolph Hitler, o discurso
se aproxima também das doutrinações do realismo-socialista da União Soviética,
responsável pelo assassinato de muitos artistas, o mais célebre deles o
encenador Vsevolod Meyerhold. O que importa aqui não é a orientação à direita
ou à esquerda do regime, mas seu autoritarismo e violência.
Isto
posto, não se esperava outra coisa deste secretário. Não se esperava outra
coisa de um governo que já manifestou seu desprezo pela democracia, pela
população que a ele se opõe, pelos direitos humanos, pela imprensa, pela
segurança pública. Não se esperava outra coisa de um governo que usa o discurso
de Deus, de Pátria e de Família para mascarar seus interesses econômicos,
exatamente como o Golpe de 64 que ele vive elogiando. E é aqui que reside o X
da questão.
Porque os interesses econômicos deste
governo são também os interesses econômicos de uma parte da sociedade. De uma
parte óbvia, como o grande empresariado (inclua-se aqui as igrejas evangélicas),
mas também de uma parte velada, como a grande maioria da imprensa. Assim, o
jornalismo brasileiro se escandaliza quando Bolsonaro xinga um jornalista, para
em seguida elogiar a “economia em recuperação”; se envergonha quando o
presidente ofende uma primeira-dama, mas comemora bobagens como a indicação à
OCDE; fica chocado quando o secretário ofende um ícone do teatro como Fernanda
Montenegro, mas goza de prazer quando Paulo Guedes fala no mercado.
Parte da sociedade, inclua-se nossa
imprensa, se comporta como o Inquisidor do texto de Brecht que abre esse artigo:
quer condenar a teoria científica, mas defender os “interesses materiais”
advindos da mesma.
No caso da estrutura perversa que governa
o país, não dá pra acender duas velas. Não se pode condenar a fala nazista do
Secretário de Cultura enquanto se elogia o desmonte neoliberal da Previdência. É
impossível que a sociedade não se coloque de forma unânime e taxativa contra
todo o conjunto da obra. Esse governo já mostrou a que veio, e é hora de cortar
suas asas antes que seja tarde demais.
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domingo, 17 de novembro de 2019
ENGENHARIA DE UM CRIME
por Isabella Reinert Thomé
Assisti a um documentário na Globonews
sobre a tragédia de Brumadinho, vista a partir dos bombeiros que trabalharam e
ainda trabalham nos locais afetados.
Foi publicado um livro de dois jornalistas,
Lucas Ragazzi e Murilo Rocha: o livro-reportagem “Brumadinho - a engenharia de
um crime”. Você ouviu falar deste livro? Eu, apenas agora, decorrente dessa
breve pesquisa.
O nosso grau de empatia é extremamente
pequeno, e não me refiro à ajuda material. Refiro-me a responsabilidade como
cidadão. Ao fato de não se relacionar o ocorrido com a ação governamental, fato
ensejado pela escolha de palavras como "acidente",
"tragédia" e similares, quando, sim, trata-se de um crime, como
menciona o título do livro. Um crime cometido por uma empresa, que tem que ser
fiscalizada pelo governo. Mas não só. Existem profissionais que assinaram
projetos e laudos, e estes têm responsabilidade. Vários são os responsáveis que
precisam ser punidos por negligência.
Ou seja, existem culpados e punição para
seus crimes. Além da empresa, o governo que há anos também negligencia a
atividade mineradora. Há anos, porque o famigerado governo do PT, mais “preocupado”
com o ser humano, agiu friamente, e não interditou a atividade da Vale e da Samarco,
no caso de Mariana. Novamente, a Vale em Brumadinho, e a tolerância com o
intolerável. E a constatação de que todas as siglas partidárias envolvidas nos
governos agem com a mesma leniência, o mesmo descaso com o cidadão.
E os cidadãos? Se tiver uma votação
amanhã, as pessoas sairão de suas casas para votar. Sequer pensam em,
simplesmente, criar um precedente, expor a fragilidade de um sistema político
que urge mudar. NADA. E mais uma vez, a famigerada polarização vai se acentuar,
porque o político “justo” acabou de ser libertado e já está pronto para o
palanque de mentiras. O presidente que escolhe os piores nomes para estar à
frente dos ministérios, não mudou a relação com as mineradoras, e embora
signifique um retrocesso geral, a Vale e outras contam com a mesma postura
governamental. Vidas são números. Quando muito, votos.
Na minha conta do Facebook onde este texto
foi inicialmente publicado, apenas tratarei de fatos relacionados ao
meio-ambiente, porque se relacionam com a matéria-prima da Belluga Perfumaria.
Naturalmente que, ao fazer isso, os aspectos políticos existentes em qualquer
situação serão tocados.
Ouvir, ver essas pessoas que lidaram e
lidam com esta dor, lembra-me que a impunidade praticada pelo executivo, pelo judiciário
e pelo legislativo não pode ser naturalizada. Não se pode esquecer, não se pode
deixar de cobrar a punição dos responsáveis.
A falta de memória nos destrói. Portanto,
também por isso, a insistência sobre a empatia que nos fortalece, nos
estrutura. Precisamos não esquecer e cobrar o devido respeito, juntos.
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domingo, 29 de setembro de 2019
OS PALHAÇOS DO CIRCO TRUMP
por Fernando Lomardo
Em termos de freak show, nada se compara
ao “governo” Jair Bolsonaro. Seu “ministério” é um desfile de horrores de fazer
a Mulher Barbada comprar uma caixa de giletes na hora.
Damares Alves fala em azul e rosa e abre
uma concorrência para arrumar um marido. Ernesto Araújo não sabe o que é
aquecimento global e faz piadinhas ignorantes sobre o risco ao planeta. Sérgio
Moro revelou-se uma fraude institucional tão escandalosa quanto o desmonte da
Previdência. Marco Ponte, corajoso para ir à Lua, é um covarde quando se trata
de defender o que é caro à Ciência brasileira. Ricardo Lessa acha que o
problema da Amazônia é que, sem queimadas, o ribeirinho não tem o que comer. E Abrão
Intraube, o miniztro da educassao, mau sabi açinar o propo nômi.
Pasmem, no entanto, que enquanto aqui só
temos essa lamentável atração de bizarrices, os Estados Unidos usufruem de um
muito bem montado circo. Mas isso não deve nos surpreender – afinal, lá é a
terra do entertainment.
A surpresa é que a grande atração desse
espantoso circo são dois brasileiros: os impagáveis palhaços Jair e Eduardo
Bolsonaro.
Jair Bolsonaro não gosta de homossexuais.
Pelo menos, é o que ele diz. Pra ele, a homoafetividade deve ser varrida da
face da Terra. No entanto, esse rei da lambança, incapaz de manifestar
afeição por quem quer que seja, é capaz de dizer “I love you” para um homem –
desde que esse homem seja o presidente dos Estados Unidos. Não tenho dúvidas de
que o capitão estaria disposto mesmo a mudar sua orientação sexual se fosse por
ordem do cabelinho de milho. É ou não é um inesquecível número cômico?
Mas nada supera, no universo da
escrotidão, o número que presenciamos na semana passada, na cidade de New York,
no prédio da ONU. Brincando de embaixador como uma menina que brinca de casinha,
Eduardo Bolsonaro fez o gesto da “arminha” que tem notabilizado sua família de
palhaços políticos. A questão é que ele fez isso em frente à escultura “Não
violência”, do artista Carl Fredrik Reuterswärd, que mostra um revólver com um nó
no cano. A obra é um convite ao desarmamento, e foi pensada como uma homenagem
a John Lennon. Vou partir do princípio de que mesmo as jovens gerações não
precisam que eu explique quem foi esse artista admirável, que teve sua vida
interrompida de forma covarde e violenta aos 40 anos de idade.
Donald Trump é um adepto da política do
“balas para todos” – de preferência, bem no meio da testa. Certamente despreza
John Lennon e deve considerá-lo um hippie maconheiro ou qualquer coisa parecida
com isso. Mas sabe muito bem que as intituições americanas não são a Casa da
Mãe Joana, como as brasileiras; jamais iria, portanto, praticar um gesto
ofensivo em um monumento que homenageia um homem assassinado a tiros.
Mas na verdade Trump não precisa fazer
isso, pois tem quem faça por ele. Eduardo Bolsonaro, rematado palerma, configuração
mais acabada de um completo imbecil, está sempre pronto a fazer uma micagem
para agradar ao patrão alaranjado. E seu número tragicômico tende sempre a
melhorar – depois da reação internacional ao seu peido fotográfico, o palhacinho
que cagou fora do pinico tentou limpar tudo com as mãos: “E se John Lennon
estivesse armado?”, arriscou o estrupício, fingindo ignorar que o músico não
teve nenhuma chance: o assassino, covarde como todo assassino, pediu um
autógrafo e atirou à queima-roupa, logo depois que Lennon devolveu-lhe a caneta
e o papel assinado.
Tristes somos nós, que elegemos uma
cambada de patifes capaz de fazer o PT e o PSDB parecerem um bando de amadores.
Feliz é Donald Trump, que tem a seu serviço dois bobos da corte capazes de
amá-lo acima de tudo e de lamber o chão pisado pelo boneco de cera do Queens. A
Terra é plana, o Pai é americano, o Filho anda armado e o Espírito Santo tem
calibre 38.
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domingo, 30 de junho de 2019
A QUEDA DA CASA DO ÓBVIO
por Fernando Lomardo
Fui entusiasta da atuação de Sérgio Moro. Classifiquei-o, a quem quis ouvir, como a personalidade mais importante do Brasil no século XXI. Pareceu de fato que ele, assim como o procurador Deltan Dallagnol, mudava paradigmas em relação ao modo como a Justiça tratava criminosos de foro branco e colarinho privilegiado – ou o contrário, se preferirem, já que no Brasil nada é o que parece ser.
Recentemente, o jornalista Glenn Greenwald
e seu site The Intercept (espécie de regra-3 do WikiLeaks, cujo criador Julian
Assange parece estar fudido para o resto da vida, agora que o Equador entregou
sua cabeça na bandeja) revelaram trocas de mensagens entre membros da Operação
Lava-Jato – particularmente, entre Moro e Dallagnol, escancarando que ambos, de
fato, centraram o maior poder de fogo das suas investigações em membros do
então governo do PT. Muito obviamente, em Luís Inácio da Silva.
Pode-se questionar a legalidade da ação do
site multinacional. Pode-se afirmar que fatos registrados ilegalmente não
constituem provas. Pode-se, no sentido inverso, questionar que, do mesmo modo
como Moro e Dallagnol foram seletivos em suas ações, The Intercept seleciona
muito rigorosamente a quem atacar. Do mesmo modo como muitos perguntavam porque
a Lava-Jato visava tanto o PT (à parte os óbvios desvios de dinheiro público),
pode-se agora perguntar porque os seguidores de Edward Snowden não revelam as
óbvias interferências de Vladimir Pútin (que dá asilo a Snowden) na eleição de
Donald Trump. Talvez não interesse escancarar o troca-troca entre a Rússia “de
esquerda” e a “direita” norte-americana – ainda mais com um norte-coreano no
meio. Mas não estamos aqui para falar de política internacional.
Muita coisa pode ser questionada, menos a
veracidade do levantamento divulgado por Greenwald. Mesmo que algumas mensagens
possam ter sido “adaptadas”, mesmo que um detalhe ou outro de data ou horário
possa ter sido alterado (e o próprio Intercept já reconheceu erros de
“digitação” (!!!)), o núcleo do furo jornalístico mostrou-se indiscutível – e
desde o início, Moro e Dallagnol foram forçados a mergulhar em workshops de
contorcionismo para explicar o inexplicável. Evidentemente, cada explicação só
piorava a lambança, como quem caga fora do pinico e depois tenta limpar tudo
com a mão.
A consequência era óbvia: a conduta
ilícita do juiz e do procurador colocaram sub-júdice a autenticidade da
Operação Lava-Jato, a primeira atuação conjunta de Polícia Federal, Ministério
Público, Receita Federal e Poder Judiciário a mandar para a cadeia, com
abundância de provas, gente do porte de Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Geddel
Vieira Lima, Beto Richa, Marcelo Odebrecht, Adriana Ancelmo, Jacob Barata, Eike
Batista, Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cortes, Jorge Picciani, Anthony
Garotinho... a lista é extensa. Alguns deles foram soltos por compadrio entre
advogados e juízes de altas cortes, mas seus processos continuam rolando e
devem ter novas consequências – como os recentes que enquadraram, mesmo que
brevemente, Michel Temer e Moreira Franco – e qual “esquerdista” não terá
comemorado isso?
Quer dizer então que a Lava-Jato não
“perseguiu” só o PT? Parece óbvio que não. Mas houve uma estratégia especial
para encontrar provas contra Lula? Parece óbvio que sim. Isso significa que as
provas contra Lula foram forjadas? É óbvio que não.
Pessoalmente, nunca precisei da Lava-Jato
para reconhecer Lula como um criminoso, desde seu óbvio envolvimento com o
mensalão em 2005 (e pelo qual ele nunca foi sequer investigado). O mesmo se deu,
para citar o exemplo mais óbvio, com Sérgio Cabral. Bastavam a renovação por 49
anos (!?) do contrato da Supervia, a despeito dos péssimos serviços da
concessionária, ou a venda de toda a folha de pagamento do Estado do Rio para o
Bradesco, para tornar óbvias as relações inconfessáveis entre o governo do Rio e
o grande empresariado. Mesmo assim, ainda levou muitos anos até que o dublê de
governador e quadrilheiro fosse encaminhado à sua residência oficial em Bangu.
Ou seja, sempre foram mais do que óbvias
as relações de banditismo entre o politicado e o grande empresariado
brasileiros, binômio no qual Lula é apenas o componente mais célebre e
carismático – jamais o único. Como canta o sambinha popular, “se gritar pega-ladrão,
não fica um”. Neste ambiente, Moro e a força-tarefa da Lava Jato despontavam
como exemplo de lisura, imparcialidade e rigor técnico. Parecia óbvia a incorruptibilidade
deste grupo.
A divulgação do The Intercept pareceu
demonstrar o contrário. Mas aqui é necessário separar o indivíduo do conjunto.
A Operação Lava-Jato não é só Sérgio Moro, muito menos Deltan Dallagnol.
A operação começa com investigações da
Polícia Federal e do Ministério Público Federal no Paraná, mas desdobra-se em
inúmeras investigações por vários estados e que envolvem também a Receita
Federal. São, na verdade, algumas centenas de responsáveis pelas investigações.
E ao contrário do que afirmam os detratores, as provas estão longe de se
resumirem a delações: envolvem documentos físicos, como transferências
bancárias, contas-laranja, extratos bancários de paraísos fiscais, notas frias,
empresas de fachada, declarações de renda, grampos telefônicos, imagens de
áudio e vídeo – ou terá sido forjada a imagem de Rocha Loures com a mala de
dinheiro, para dar o exemplo mais óbvio?
No caso específico de Lula, as perguntas
são simétricas: Lula foi alvo porque a elite não gosta de ver pobre viajando de
avião? Ou foi alvo porque roubou tanto que não deu para esconder todas as provas?
As provas são inúmeras e irrefutáveis, e
não se trata aqui de torcer para um time. Negar as evidências contra Lula
equivale a negar as evidências contra Moro. A Operação Lava-Jato não forjou
provas contra Lula, mas obviamente centrou esforços em buscá-las e
encontrá-las. Nesse processo, o site de Greenwald vem demonstrando que Sérgio
Moro ultrapassou vários limites da ética judicial. Justamente aquela
personalidade que parecia despontar como exemplo de conduta teve aberto seu
telhado de vidro para a pedraria generalizada. Como consequência nefasta, impôs
um telhado de vidro, não merecido, para toda a Operação.
Ergo, o problema aqui não é a Lava-Jato.
Ergo, o problema aqui é Sérgio Moro e a
sua absoluta e surpreendente semelhança com o pior da política brasileira.
Este senhor já havia mandado uma bola por
cima da arquibancada ao aceitar participar da Barca dos Desajustados de Jair
Bolsonaro, verdadeiro freak-show que não pode ser chamado de governo. Aqui, eu mesmo
poderia ter ouvido a voz da juventude, por quem fala a experiência que nós,
velhos, já esquecemos. Quando Bolsonaro anunciou a nomeação do juiz para o
Ministério da Justiça, comentei com meu filho Juan: “ele [Bolsonaro] pensa que
Moro é tão fisiológico quanto ele mesmo”. Juan respondeu: “pois eu acho que o
Moro é fisiológico, sim”.
Os fatos mostram que Juan estava certo.
Desde que assumiu pasta na camarilha de
Bolsonaro, Moro passou a se especializar em desdizer o que havia dito – a
começar pela recorrente afirmação de que não tinha interesse na política, nem
na presidência. Os fatos mostram o contrário.
Sua firme convicção de que caixa 2 é crime
amoleceu quando a boca na botija era a de Onyx Lorenzoni – o evangélico
espertalhão que tentou roubar os royalties do Rio e São Paulo e que defende que
caixa 2 pode ser perdoado por Deus. É óbvio que, agora, Moro também acredita
nisso.
Sua “exigência” de que o COAF ficasse em
seu ministério virou uma chacota. Seu “projeto anti-crime” foi depenado como
uma galinha, pelo mesmo Congresso que antes saía correndo ao ouvir seu nome. Rodrigo
Maia, fisiológico de família, mandou que Moro calasse a boca e o ex-juiz
obedeceu. A cereja do bolo foi seu flerte com a “Marcha para Jesus”,
parafernália evangélica para simular compunção e fervor.
O juiz que foi temido pelos três poderes
hoje é dócil bobo-da-corte, vestindo camisas de futebol para delírio dos
descerebrados que constituem a maioria da população brasileira.
No Brasil, tudo é enfadonhamente óbvio. Mas
mesmo o óbvio consegue mudar de figurino, de texto e de cenário.
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