domingo, 27 de setembro de 2020

FECHANDO A BOCA DA MILÍCIA

     https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/26/auxilio-emergencial-desempregada-justica-bolsonaro-discurso-onu.htm

 

     Queria saber o que se passa na cabeça da assessoria jurídica de deputados e senadores da nossa suposta oposição. A União (e não jair bolsonaro, pois este tem foro privilegiado) deveria ser acionada judicialmente a cada vez que o miliciano abre a boca – ele ou qualquer integrante de sua milícia. "São os índios que botam fogo na floresta". "Ah, é? Vai ter que provar". Tome ação na justiça. "Homossexuais têm famílias desajustadas". Vai ter que provar. Ação na justiça. "Essa gripe é para covardes". Prove. Ação na justiça. E por aí vai. Mas nossa oposição, historicamente, tem medo de se posicionar de forma radical. Vêm sempre com a conversinha do "diálogo". Se enchermos esse governo (através da União, que pode ser acionada em primeira instância) de ações judiciais, o mínimo que se pode conseguir é arrancar um pouco da grana que eles querem dar para os bancos. Em tempo: por que a demônia Sadama Servel não está presa, após expor a privacidade, a integridade física e moral e a vida mesmo de uma criança de 10 anos? O foro por prerrogativa de função é anulado em caso de crime flagrante; onde estava a oposição no momento do ato criminoso? Ah, sei: os assessores jurídicos estão sempre muito ocupados em livrar os parlamentares da Polícia Federal.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

NOSSAS OLIGARQUIAS FAMILIARES

por Fernando Lomardo, O Apontador


     O Pará tem Barbalho. O Maranhão tem Sarney. Minas Gerais tem Neves. Alagoas tem Calheiros. São Paulo tem Covas. O Rio de Janeiro tem Maia.

     A política brasileira é composta por feudos que se eternizam no poder. O coronelismo supostamente ultrapassado, tão detalhadamente descrito por Jorge Amado e Érico Veríssimo, troca de terno ao longo das décadas e permanece comandando o jogo apodrecido do fatiamento do dinheiro público. Pais elegem seus filhos que reelegem seus filhos que contratam seus filhos que nomeiam seus filhos, e parentes e amigos entram junto de roldão na festa do fisiologismo democrático.

     A foto que ilustra o artigo é emblemática dos conluios entre políticos e famílias poderosas na divisão dos dividendos do parasitismo. Foto do saudoso Jornal do Brasil, janeiro de 2002. O atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, (recentemente mencionado em delação do dono da Gol Linhas Aéreas) em descontraida balada com amigos. Seu pai, César Maia, era na ocasião prefeito do Rio de Janeiro, em seu segundo mandato. Foram três no total, além de Senado, vereança, etc.

     Os amigos de Maia filho: Rick Amaral, filho de Ricardo Amaral, o “rei da noite” (proprietário de boates lendárias, como New York City, Pappagaio’s, Hippopotamus, etc); e Kim Peixoto de Castro. Aqui está uma das chaves do cofre.

     A família Peixoto de Castro foi uma das mais ricas do país, proprietária, entre outras coisas, da Refinaria de Manguinhos. Por algum motivo entrou em processo de recuperação judicial. Um de seus “varões” é investigado na Lavajato. Por esse motivo uma das acionistas do grupo, a Sky Investment, entrou com ação judicial para afastar o patriarca Paulo César do Conselho Administrativo. Outros dois membros da família foram acionados pelas ex-esposas por não pagamento de pensão aos filhos. Tutte buona gente.   

     A inofensiva nota social foi publicada na coluna de Márcia Peltier, que foi casada com Carlos Arthur Nuszman – aquele que foi preso por roubar dinheiro da Olimpíada do Rio, lembram?

     É o círculo infinito de nosso sistema político-empresarial. Grandes políticos são amigos de grandes empresários que são amigos de grandes jornalistas que são amigos de grandes politicos que são amigos...

     Mantendo o movimento do círculo, famílias que se perpetuam ad aeternum. Pai que elege filho que nomeia amigo que contrata outro amigo... e la nave va.

     O Pará tem Barbalho. O Maranhão tem Sarney. Minas Gerais tem Neves. Alagoas tem Calheiros. São Paulo tem Covas. O Rio de Janeiro tem Maia.

     O Brasil inteiro, no momento, tem Bolsonaro.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

ALGUÉM ESTÁ REALMENTE PENSANDO EM MUDANÇA?


por Fernando Lomardo
Ator, Produtor Cultural e Arte-Educador

     Uma preocupação pra lá de curiosa vem ocupando nosso diligente noticiário. Uma parte dele (excetuando-se as emissoras que apoiam bolsonaro e portanto não enxergam um palmo à frente do nariz) vem perguntando se a epidemia de Covid-19 poderá alterar nosso comportamento em um futuro próximo. Intelectuais do momento, como Leandro Karnal e Mário Sérgio Cortella, são requisitados para explicar, com seu arcabouço acadêmico, se a peste chinesa vai trazer no rescaldo algum novo paradigma ético na conduta do megavírus conhecido como Civilização.

     Perplexo em meu continuado isolamento social (eu que nunca fui muito de aglomeração, tendo sempre preferido um livro, uma cachaça, minha família e meus gatos), me pergunto o por quê da pergunta. A alta taxa de mortalidade, os sepultamentos em covas coletivas, a tensão constante pelo risco do contágio, a paralisação da mobilidade e dos serviços, a economia em frangalhos, poderão gerar um Novo Homem, uma Nova Sociedade, um Novo Comportamento, uma Nova Ética? Ainda não entendi quem foi o mágico que tirou de qual cartola essa pergunta inútil.

     A gripe espanhola seria apenas um dos inúmeros exemplos. Depois de matar sei lá quantos milhões de pessoas há cem anos, qual foi o saldo ético disso? Alguém citaria algum? Podemos recuar ou avançar no tempo. As inúmeras pestes que assolaram a Europa na Idade Média e no Renascimento. A febre amarela no Brasil, entre o XIX e o XX. As várias gripes que a China tem exportado nos últimos 20 anos. Isso mudou alguma coisa? Trouxe uma nova ética? Um novo recomeço?

     Por quantas guerras a humanidade já passou? Quantos milhões, talvez bilhões de mortos? E de feridos? Mutilados? Aleijados? Famílias destroçadas? Cidades destruídas? Economias paralíticas? Condições de sobrevivência interditadas, interrompidas, impossibilitadas? E o que foi que mudou após tudo isso?

     Os exemplos podem ser globais ou circunscritos. Mal se passara um quarto de século que a Alemanha havia provocado a Primeira Guerra Mundial, quando arrumou logo a segunda. Tudo bem, eram outros agentes, mas era o mesmo país, e sobretudo era a mesma “Humanidade”. Não deu pra aprender nada com 1914-1919? Não, não deu. Assim como não deu pra aprender nada com 1939-1945.

     Os Estados Unidos melhoraram alguma coisa após as guerras da Coréia e do Vietnã? Ou apenas passaram a escolher adversários mais fracos (Granada, Iraque, El Salvador) para vilipendiar?

     O Brasil tem, ao longo de sua trajetória de 500 anos de “civilização”, uma das mais devastadoras desigualdades socio-econômicas da história da humanidade. Essa desigualdade tem como consequência, sabemos todos, uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo. Os milhares de mortos anualmente pela violência urbana, em números superiores a muitas guerras, trazem algum novo comportamento? Alguma nova ética? Compreendemos a necessidade de coesão e empatia, ou continuamos cagando para o vizinho e jogando o lixo na porta dele?

     A renitência da humanidade é ampla, geral e irrestrita. Sabemos que estamos errados, sabemos por que e sabemos como. Mas corrigir comportamentos nocivos é, isso sim, um ato de verdadeiro esforço e coragem. Não é qualquer um que consegue. A grande maioria nem tenta. Isso vale para o Brasil, para o Mundo e, se houver seres humanos em Marte, vale para eles também.

     Podem tirar o pocotó da chuva. A humanidade não vai mudar NADA. O brasileiro não vai mudar NADA. Nossos políticos não vão mudar NADA. Todos continuarão medíocres e idiotizados, pensando no próprio estômago e no Flamengo, em amarrar o burro na sombra e se dar bem de alguma forma. Nossos três poderes continuarão usando seus cargos para desviar dinheiro e para criar leis que favoreçam a eles mesmos. Nosso grande empresariado continuará bolando novas formas de extorquir dinheiro, sempre em nome do mercado e com o apoio dos três poderes. A classe média continuará desorientada e burra, repetindo clichês do tipo “onde nós vamos parar”? Os favelados, de quem tanto se fala hoje, coitadinhos, continuarão preocupados em rebolar a bunda no baile funk. A Imprensa continuará colocando o senso comum acima da inteligência. A Educação continuará uma merda, a Saúde continuará uma Doença, o Meio Ambiente será gradativamente exterminado e as crianças continuarão não existindo – apenas quando se tornarem “o adulto de amanhã”, espertalhões, metidos a malandro, barrigudos e safados e repetindo, com um sorriso pretensioso, que “todo mundo rouba, eu vou roubar também”, pois isso é tudo que nossa sociedade consegue ensinar.

     O Covid-19 é só mais uma doença. Terrível, tentacular, indiscriminada, tão assustadora quanto o câncer e a AIDS já o foram. Mas é apenas mais uma. Não é a pior. Nossa pior Doença somos nós mesmos.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

NÃO DÁ PRA ACENDER DUAS VELAS



por Fernando Lomardo

     O Inquisidor: As cidades marítimas pedem os mapas de Galileu com urgência. Vai ser preciso ceder, são interesses materiais.
     O Papa: Não se pode condenar a doutrina e aceitar os mapas.
     O Inquisidor: Como não? Não se pode é fazer outra coisa!”


Da peça teatral "Vida de Galileu", de Bertolt Brecht

     Depois de se escandalizar com os xingamentos diários de Jair Bolsonaro, de gargalhar com o cocô na boca do presidente, de se estarrecer com o ministério mais inqualificável da história do país, de se constranger com as demonstrações ininterruptas de ignorância e burrice, de se aviltar com as inúmeras suspeitas de corrupção e de outros crimes praticados pelo chefe do executivo e por sua família, agora o Brasil assiste, mais uma vez perplexo, ao pronunciamento do secretário de cultura Roberto Alvim.
     Para além do tom superlativo-pentecostal que infecta o discurso de todos os que participam ou estão ligados a este governo, com as costumeiras tolices sobre fé, pátria e deus, etc, o pronunciamento traz implícitas a agressão e a ameaça constitutivas dos regimes totalitários, em formulações do tipo “a cultura será o que queremos ou não será nada”. Apesar de promover um plágio descarado de um texto de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Adolph Hitler, o discurso se aproxima também das doutrinações do realismo-socialista da União Soviética, responsável pelo assassinato de muitos artistas, o mais célebre deles o encenador Vsevolod Meyerhold. O que importa aqui não é a orientação à direita ou à esquerda do regime, mas seu autoritarismo e violência.
     Isto posto, não se esperava outra coisa deste secretário. Não se esperava outra coisa de um governo que já manifestou seu desprezo pela democracia, pela população que a ele se opõe, pelos direitos humanos, pela imprensa, pela segurança pública. Não se esperava outra coisa de um governo que usa o discurso de Deus, de Pátria e de Família para mascarar seus interesses econômicos, exatamente como o Golpe de 64 que ele vive elogiando. E é aqui que reside o X da questão.
     Porque os interesses econômicos deste governo são também os interesses econômicos de uma parte da sociedade. De uma parte óbvia, como o grande empresariado (inclua-se aqui as igrejas evangélicas), mas também de uma parte velada, como a grande maioria da imprensa. Assim, o jornalismo brasileiro se escandaliza quando Bolsonaro xinga um jornalista, para em seguida elogiar a “economia em recuperação”; se envergonha quando o presidente ofende uma primeira-dama, mas comemora bobagens como a indicação à OCDE; fica chocado quando o secretário ofende um ícone do teatro como Fernanda Montenegro, mas goza de prazer quando Paulo Guedes fala no mercado.
     Parte da sociedade, inclua-se nossa imprensa, se comporta como o Inquisidor do texto de Brecht que abre esse artigo: quer condenar a teoria científica, mas defender os “interesses materiais” advindos da mesma.
     No caso da estrutura perversa que governa o país, não dá pra acender duas velas. Não se pode condenar a fala nazista do Secretário de Cultura enquanto se elogia o desmonte neoliberal da Previdência. É impossível que a sociedade não se coloque de forma unânime e taxativa contra todo o conjunto da obra. Esse governo já mostrou a que veio, e é hora de cortar suas asas antes que seja tarde demais.

domingo, 17 de novembro de 2019

ENGENHARIA DE UM CRIME


por Isabella Reinert Thomé

     Assisti a um documentário na Globonews sobre a tragédia de Brumadinho, vista a partir dos bombeiros que trabalharam e ainda trabalham nos locais afetados.
     Foi publicado um livro de dois jornalistas, Lucas Ragazzi e Murilo Rocha: o livro-reportagem “Brumadinho - a engenharia de um crime”. Você ouviu falar deste livro? Eu, apenas agora, decorrente dessa breve pesquisa.
     O nosso grau de empatia é extremamente pequeno, e não me refiro à ajuda material. Refiro-me a responsabilidade como cidadão. Ao fato de não se relacionar o ocorrido com a ação governamental, fato ensejado pela escolha de palavras como "acidente", "tragédia" e similares, quando, sim, trata-se de um crime, como menciona o título do livro. Um crime cometido por uma empresa, que tem que ser fiscalizada pelo governo. Mas não só. Existem profissionais que assinaram projetos e laudos, e estes têm responsabilidade. Vários são os responsáveis que precisam ser punidos por negligência.
     Ou seja, existem culpados e punição para seus crimes. Além da empresa, o governo que há anos também negligencia a atividade mineradora. Há anos, porque o famigerado governo do PT, mais “preocupado” com o ser humano, agiu friamente, e não interditou a atividade da Vale e da Samarco, no caso de Mariana. Novamente, a Vale em Brumadinho, e a tolerância com o intolerável. E a constatação de que todas as siglas partidárias envolvidas nos governos agem com a mesma leniência, o mesmo descaso com o cidadão.
     E os cidadãos? Se tiver uma votação amanhã, as pessoas sairão de suas casas para votar. Sequer pensam em, simplesmente, criar um precedente, expor a fragilidade de um sistema político que urge mudar. NADA. E mais uma vez, a famigerada polarização vai se acentuar, porque o político “justo” acabou de ser libertado e já está pronto para o palanque de mentiras. O presidente que escolhe os piores nomes para estar à frente dos ministérios, não mudou a relação com as mineradoras, e embora signifique um retrocesso geral, a Vale e outras contam com a mesma postura governamental. Vidas são números. Quando muito, votos.
     Na minha conta do Facebook onde este texto foi inicialmente publicado, apenas tratarei de fatos relacionados ao meio-ambiente, porque se relacionam com a matéria-prima da Belluga Perfumaria. Naturalmente que, ao fazer isso, os aspectos políticos existentes em qualquer situação serão tocados.
     Ouvir, ver essas pessoas que lidaram e lidam com esta dor, lembra-me que a impunidade praticada pelo executivo, pelo judiciário e pelo legislativo não pode ser naturalizada. Não se pode esquecer, não se pode deixar de cobrar a punição dos responsáveis.
     A falta de memória nos destrói. Portanto, também por isso, a insistência sobre a empatia que nos fortalece, nos estrutura. Precisamos não esquecer e cobrar o devido respeito, juntos.

domingo, 29 de setembro de 2019

OS PALHAÇOS DO CIRCO TRUMP


por Fernando Lomardo

     Em termos de freak show, nada se compara ao “governo” Jair Bolsonaro. Seu “ministério” é um desfile de horrores de fazer a Mulher Barbada comprar uma caixa de giletes na hora.

     Damares Alves fala em azul e rosa e abre uma concorrência para arrumar um marido. Ernesto Araújo não sabe o que é aquecimento global e faz piadinhas ignorantes sobre o risco ao planeta. Sérgio Moro revelou-se uma fraude institucional tão escandalosa quanto o desmonte da Previdência. Marco Ponte, corajoso para ir à Lua, é um covarde quando se trata de defender o que é caro à Ciência brasileira. Ricardo Lessa acha que o problema da Amazônia é que, sem queimadas, o ribeirinho não tem o que comer. E Abrão Intraube, o miniztro da educassao, mau sabi açinar o propo nômi.

     Pasmem, no entanto, que enquanto aqui só temos essa lamentável atração de bizarrices, os Estados Unidos usufruem de um muito bem montado circo. Mas isso não deve nos surpreender – afinal, lá é a terra do entertainment.

     A surpresa é que a grande atração desse espantoso circo são dois brasileiros: os impagáveis palhaços Jair e Eduardo Bolsonaro.

     Jair Bolsonaro não gosta de homossexuais. Pelo menos, é o que ele diz. Pra ele, a homoafetividade deve ser varrida da face da Terra. No entanto, esse rei da lambança, incapaz de manifestar afeição por quem quer que seja, é capaz de dizer “I love you” para um homem – desde que esse homem seja o presidente dos Estados Unidos. Não tenho dúvidas de que o capitão estaria disposto mesmo a mudar sua orientação sexual se fosse por ordem do cabelinho de milho. É ou não é um inesquecível número cômico?

     Mas nada supera, no universo da escrotidão, o número que presenciamos na semana passada, na cidade de New York, no prédio da ONU. Brincando de embaixador como uma menina que brinca de casinha, Eduardo Bolsonaro fez o gesto da “arminha” que tem notabilizado sua família de palhaços políticos. A questão é que ele fez isso em frente à escultura “Não violência”, do artista Carl Fredrik Reuterswärd, que mostra um revólver com um nó no cano. A obra é um convite ao desarmamento, e foi pensada como uma homenagem a John Lennon. Vou partir do princípio de que mesmo as jovens gerações não precisam que eu explique quem foi esse artista admirável, que teve sua vida interrompida de forma covarde e violenta aos 40 anos de idade.

     Donald Trump é um adepto da política do “balas para todos” – de preferência, bem no meio da testa. Certamente despreza John Lennon e deve considerá-lo um hippie maconheiro ou qualquer coisa parecida com isso. Mas sabe muito bem que as intituições americanas não são a Casa da Mãe Joana, como as brasileiras; jamais iria, portanto, praticar um gesto ofensivo em um monumento que homenageia um homem assassinado a tiros.

     Mas na verdade Trump não precisa fazer isso, pois tem quem faça por ele. Eduardo Bolsonaro, rematado palerma, configuração mais acabada de um completo imbecil, está sempre pronto a fazer uma micagem para agradar ao patrão alaranjado. E seu número tragicômico tende sempre a melhorar – depois da reação internacional ao seu peido fotográfico, o palhacinho que cagou fora do pinico tentou limpar tudo com as mãos: “E se John Lennon estivesse armado?”, arriscou o estrupício, fingindo ignorar que o músico não teve nenhuma chance: o assassino, covarde como todo assassino, pediu um autógrafo e atirou à queima-roupa, logo depois que Lennon devolveu-lhe a caneta e o papel assinado.

     Tristes somos nós, que elegemos uma cambada de patifes capaz de fazer o PT e o PSDB parecerem um bando de amadores. Feliz é Donald Trump, que tem a seu serviço dois bobos da corte capazes de amá-lo acima de tudo e de lamber o chão pisado pelo boneco de cera do Queens. A Terra é plana, o Pai é americano, o Filho anda armado e o Espírito Santo tem calibre 38.

domingo, 30 de junho de 2019

A QUEDA DA CASA DO ÓBVIO


por Fernando Lomardo




    Fui entusiasta da atuação de Sérgio Moro. Classifiquei-o, a quem quis ouvir, como a personalidade mais importante do Brasil no século XXI. Pareceu de fato que ele, assim como o procurador Deltan Dallagnol, mudava paradigmas em relação ao modo como a Justiça tratava criminosos de foro branco e colarinho privilegiado – ou o contrário, se preferirem, já que no Brasil nada é o que parece ser.

     Recentemente, o jornalista Glenn Greenwald e seu site The Intercept (espécie de regra-3 do WikiLeaks, cujo criador Julian Assange parece estar fudido para o resto da vida, agora que o Equador entregou sua cabeça na bandeja) revelaram trocas de mensagens entre membros da Operação Lava-Jato – particularmente, entre Moro e Dallagnol, escancarando que ambos, de fato, centraram o maior poder de fogo das suas investigações em membros do então governo do PT. Muito obviamente, em Luís Inácio da Silva.

     Pode-se questionar a legalidade da ação do site multinacional. Pode-se afirmar que fatos registrados ilegalmente não constituem provas. Pode-se, no sentido inverso, questionar que, do mesmo modo como Moro e Dallagnol foram seletivos em suas ações, The Intercept seleciona muito rigorosamente a quem atacar. Do mesmo modo como muitos perguntavam porque a Lava-Jato visava tanto o PT (à parte os óbvios desvios de dinheiro público), pode-se agora perguntar porque os seguidores de Edward Snowden não revelam as óbvias interferências de Vladimir Pútin (que dá asilo a Snowden) na eleição de Donald Trump. Talvez não interesse escancarar o troca-troca entre a Rússia “de esquerda” e a “direita” norte-americana – ainda mais com um norte-coreano no meio. Mas não estamos aqui para falar de política internacional.

     Muita coisa pode ser questionada, menos a veracidade do levantamento divulgado por Greenwald. Mesmo que algumas mensagens possam ter sido “adaptadas”, mesmo que um detalhe ou outro de data ou horário possa ter sido alterado (e o próprio Intercept já reconheceu erros de “digitação” (!!!)), o núcleo do furo jornalístico mostrou-se indiscutível – e desde o início, Moro e Dallagnol foram forçados a mergulhar em workshops de contorcionismo para explicar o inexplicável. Evidentemente, cada explicação só piorava a lambança, como quem caga fora do pinico e depois tenta limpar tudo com a mão.

     A consequência era óbvia: a conduta ilícita do juiz e do procurador colocaram sub-júdice a autenticidade da Operação Lava-Jato, a primeira atuação conjunta de Polícia Federal, Ministério Público, Receita Federal e Poder Judiciário a mandar para a cadeia, com abundância de provas, gente do porte de Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Beto Richa, Marcelo Odebrecht, Adriana Ancelmo, Jacob Barata, Eike Batista, Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cortes, Jorge Picciani, Anthony Garotinho... a lista é extensa. Alguns deles foram soltos por compadrio entre advogados e juízes de altas cortes, mas seus processos continuam rolando e devem ter novas consequências – como os recentes que enquadraram, mesmo que brevemente, Michel Temer e Moreira Franco – e qual “esquerdista” não terá comemorado isso?

     Quer dizer então que a Lava-Jato não “perseguiu” só o PT? Parece óbvio que não. Mas houve uma estratégia especial para encontrar provas contra Lula? Parece óbvio que sim. Isso significa que as provas contra Lula foram forjadas? É óbvio que não.

     Pessoalmente, nunca precisei da Lava-Jato para reconhecer Lula como um criminoso, desde seu óbvio envolvimento com o mensalão em 2005 (e pelo qual ele nunca foi sequer investigado). O mesmo se deu, para citar o exemplo mais óbvio, com Sérgio Cabral. Bastavam a renovação por 49 anos (!?) do contrato da Supervia, a despeito dos péssimos serviços da concessionária, ou a venda de toda a folha de pagamento do Estado do Rio para o Bradesco, para tornar óbvias as relações inconfessáveis entre o governo do Rio e o grande empresariado. Mesmo assim, ainda levou muitos anos até que o dublê de governador e quadrilheiro fosse encaminhado à sua residência oficial em Bangu.

     Ou seja, sempre foram mais do que óbvias as relações de banditismo entre o politicado e o grande empresariado brasileiros, binômio no qual Lula é apenas o componente mais célebre e carismático – jamais o único. Como canta o sambinha popular, “se gritar pega-ladrão, não fica um”. Neste ambiente, Moro e a força-tarefa da Lava Jato despontavam como exemplo de lisura, imparcialidade e rigor técnico. Parecia óbvia a incorruptibilidade deste grupo.

     A divulgação do The Intercept pareceu demonstrar o contrário. Mas aqui é necessário separar o indivíduo do conjunto. A Operação Lava-Jato não é só Sérgio Moro, muito menos Deltan Dallagnol.

     A operação começa com investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal no Paraná, mas desdobra-se em inúmeras investigações por vários estados e que envolvem também a Receita Federal. São, na verdade, algumas centenas de responsáveis pelas investigações. E ao contrário do que afirmam os detratores, as provas estão longe de se resumirem a delações: envolvem documentos físicos, como transferências bancárias, contas-laranja, extratos bancários de paraísos fiscais, notas frias, empresas de fachada, declarações de renda, grampos telefônicos, imagens de áudio e vídeo – ou terá sido forjada a imagem de Rocha Loures com a mala de dinheiro, para dar o exemplo mais óbvio?

    No caso específico de Lula, as perguntas são simétricas: Lula foi alvo porque a elite não gosta de ver pobre viajando de avião? Ou foi alvo porque roubou tanto que não deu para esconder todas as provas?

     As provas são inúmeras e irrefutáveis, e não se trata aqui de torcer para um time. Negar as evidências contra Lula equivale a negar as evidências contra Moro. A Operação Lava-Jato não forjou provas contra Lula, mas obviamente centrou esforços em buscá-las e encontrá-las. Nesse processo, o site de Greenwald vem demonstrando que Sérgio Moro ultrapassou vários limites da ética judicial. Justamente aquela personalidade que parecia despontar como exemplo de conduta teve aberto seu telhado de vidro para a pedraria generalizada. Como consequência nefasta, impôs um telhado de vidro, não merecido, para toda a Operação.

     Ergo, o problema aqui não é a Lava-Jato.

     Ergo, o problema aqui é Sérgio Moro e a sua absoluta e surpreendente semelhança com o pior da política brasileira.

     Este senhor já havia mandado uma bola por cima da arquibancada ao aceitar participar da Barca dos Desajustados de Jair Bolsonaro, verdadeiro freak-show que não pode ser chamado de governo. Aqui, eu mesmo poderia ter ouvido a voz da juventude, por quem fala a experiência que nós, velhos, já esquecemos. Quando Bolsonaro anunciou a nomeação do juiz para o Ministério da Justiça, comentei com meu filho Juan: “ele [Bolsonaro] pensa que Moro é tão fisiológico quanto ele mesmo”. Juan respondeu: “pois eu acho que o Moro é fisiológico, sim”.

     Os fatos mostram que Juan estava certo.

     Desde que assumiu pasta na camarilha de Bolsonaro, Moro passou a se especializar em desdizer o que havia dito – a começar pela recorrente afirmação de que não tinha interesse na política, nem na presidência. Os fatos mostram o contrário.

     Sua firme convicção de que caixa 2 é crime amoleceu quando a boca na botija era a de Onyx Lorenzoni – o evangélico espertalhão que tentou roubar os royalties do Rio e São Paulo e que defende que caixa 2 pode ser perdoado por Deus. É óbvio que, agora, Moro também acredita nisso.

     Sua “exigência” de que o COAF ficasse em seu ministério virou uma chacota. Seu “projeto anti-crime” foi depenado como uma galinha, pelo mesmo Congresso que antes saía correndo ao ouvir seu nome. Rodrigo Maia, fisiológico de família, mandou que Moro calasse a boca e o ex-juiz obedeceu. A cereja do bolo foi seu flerte com a “Marcha para Jesus”, parafernália evangélica para simular compunção e fervor.

     O juiz que foi temido pelos três poderes hoje é dócil bobo-da-corte, vestindo camisas de futebol para delírio dos descerebrados que constituem a maioria da população brasileira.

     No Brasil, tudo é enfadonhamente óbvio. Mas mesmo o óbvio consegue mudar de figurino, de texto e de cenário.