por Fernando Lomardo
Fui entusiasta da atuação de Sérgio Moro. Classifiquei-o, a quem quis ouvir, como a personalidade mais importante do Brasil no século XXI. Pareceu de fato que ele, assim como o procurador Deltan Dallagnol, mudava paradigmas em relação ao modo como a Justiça tratava criminosos de foro branco e colarinho privilegiado – ou o contrário, se preferirem, já que no Brasil nada é o que parece ser.
Recentemente, o jornalista Glenn Greenwald
e seu site The Intercept (espécie de regra-3 do WikiLeaks, cujo criador Julian
Assange parece estar fudido para o resto da vida, agora que o Equador entregou
sua cabeça na bandeja) revelaram trocas de mensagens entre membros da Operação
Lava-Jato – particularmente, entre Moro e Dallagnol, escancarando que ambos, de
fato, centraram o maior poder de fogo das suas investigações em membros do
então governo do PT. Muito obviamente, em Luís Inácio da Silva.
Pode-se questionar a legalidade da ação do
site multinacional. Pode-se afirmar que fatos registrados ilegalmente não
constituem provas. Pode-se, no sentido inverso, questionar que, do mesmo modo
como Moro e Dallagnol foram seletivos em suas ações, The Intercept seleciona
muito rigorosamente a quem atacar. Do mesmo modo como muitos perguntavam porque
a Lava-Jato visava tanto o PT (à parte os óbvios desvios de dinheiro público),
pode-se agora perguntar porque os seguidores de Edward Snowden não revelam as
óbvias interferências de Vladimir Pútin (que dá asilo a Snowden) na eleição de
Donald Trump. Talvez não interesse escancarar o troca-troca entre a Rússia “de
esquerda” e a “direita” norte-americana – ainda mais com um norte-coreano no
meio. Mas não estamos aqui para falar de política internacional.
Muita coisa pode ser questionada, menos a
veracidade do levantamento divulgado por Greenwald. Mesmo que algumas mensagens
possam ter sido “adaptadas”, mesmo que um detalhe ou outro de data ou horário
possa ter sido alterado (e o próprio Intercept já reconheceu erros de
“digitação” (!!!)), o núcleo do furo jornalístico mostrou-se indiscutível – e
desde o início, Moro e Dallagnol foram forçados a mergulhar em workshops de
contorcionismo para explicar o inexplicável. Evidentemente, cada explicação só
piorava a lambança, como quem caga fora do pinico e depois tenta limpar tudo
com a mão.
A consequência era óbvia: a conduta
ilícita do juiz e do procurador colocaram sub-júdice a autenticidade da
Operação Lava-Jato, a primeira atuação conjunta de Polícia Federal, Ministério
Público, Receita Federal e Poder Judiciário a mandar para a cadeia, com
abundância de provas, gente do porte de Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Geddel
Vieira Lima, Beto Richa, Marcelo Odebrecht, Adriana Ancelmo, Jacob Barata, Eike
Batista, Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cortes, Jorge Picciani, Anthony
Garotinho... a lista é extensa. Alguns deles foram soltos por compadrio entre
advogados e juízes de altas cortes, mas seus processos continuam rolando e
devem ter novas consequências – como os recentes que enquadraram, mesmo que
brevemente, Michel Temer e Moreira Franco – e qual “esquerdista” não terá
comemorado isso?
Quer dizer então que a Lava-Jato não
“perseguiu” só o PT? Parece óbvio que não. Mas houve uma estratégia especial
para encontrar provas contra Lula? Parece óbvio que sim. Isso significa que as
provas contra Lula foram forjadas? É óbvio que não.
Pessoalmente, nunca precisei da Lava-Jato
para reconhecer Lula como um criminoso, desde seu óbvio envolvimento com o
mensalão em 2005 (e pelo qual ele nunca foi sequer investigado). O mesmo se deu,
para citar o exemplo mais óbvio, com Sérgio Cabral. Bastavam a renovação por 49
anos (!?) do contrato da Supervia, a despeito dos péssimos serviços da
concessionária, ou a venda de toda a folha de pagamento do Estado do Rio para o
Bradesco, para tornar óbvias as relações inconfessáveis entre o governo do Rio e
o grande empresariado. Mesmo assim, ainda levou muitos anos até que o dublê de
governador e quadrilheiro fosse encaminhado à sua residência oficial em Bangu.
Ou seja, sempre foram mais do que óbvias
as relações de banditismo entre o politicado e o grande empresariado
brasileiros, binômio no qual Lula é apenas o componente mais célebre e
carismático – jamais o único. Como canta o sambinha popular, “se gritar pega-ladrão,
não fica um”. Neste ambiente, Moro e a força-tarefa da Lava Jato despontavam
como exemplo de lisura, imparcialidade e rigor técnico. Parecia óbvia a incorruptibilidade
deste grupo.
A divulgação do The Intercept pareceu
demonstrar o contrário. Mas aqui é necessário separar o indivíduo do conjunto.
A Operação Lava-Jato não é só Sérgio Moro, muito menos Deltan Dallagnol.
A operação começa com investigações da
Polícia Federal e do Ministério Público Federal no Paraná, mas desdobra-se em
inúmeras investigações por vários estados e que envolvem também a Receita
Federal. São, na verdade, algumas centenas de responsáveis pelas investigações.
E ao contrário do que afirmam os detratores, as provas estão longe de se
resumirem a delações: envolvem documentos físicos, como transferências
bancárias, contas-laranja, extratos bancários de paraísos fiscais, notas frias,
empresas de fachada, declarações de renda, grampos telefônicos, imagens de
áudio e vídeo – ou terá sido forjada a imagem de Rocha Loures com a mala de
dinheiro, para dar o exemplo mais óbvio?
No caso específico de Lula, as perguntas
são simétricas: Lula foi alvo porque a elite não gosta de ver pobre viajando de
avião? Ou foi alvo porque roubou tanto que não deu para esconder todas as provas?
As provas são inúmeras e irrefutáveis, e
não se trata aqui de torcer para um time. Negar as evidências contra Lula
equivale a negar as evidências contra Moro. A Operação Lava-Jato não forjou
provas contra Lula, mas obviamente centrou esforços em buscá-las e
encontrá-las. Nesse processo, o site de Greenwald vem demonstrando que Sérgio
Moro ultrapassou vários limites da ética judicial. Justamente aquela
personalidade que parecia despontar como exemplo de conduta teve aberto seu
telhado de vidro para a pedraria generalizada. Como consequência nefasta, impôs
um telhado de vidro, não merecido, para toda a Operação.
Ergo, o problema aqui não é a Lava-Jato.
Ergo, o problema aqui é Sérgio Moro e a
sua absoluta e surpreendente semelhança com o pior da política brasileira.
Este senhor já havia mandado uma bola por
cima da arquibancada ao aceitar participar da Barca dos Desajustados de Jair
Bolsonaro, verdadeiro freak-show que não pode ser chamado de governo. Aqui, eu mesmo
poderia ter ouvido a voz da juventude, por quem fala a experiência que nós,
velhos, já esquecemos. Quando Bolsonaro anunciou a nomeação do juiz para o
Ministério da Justiça, comentei com meu filho Juan: “ele [Bolsonaro] pensa que
Moro é tão fisiológico quanto ele mesmo”. Juan respondeu: “pois eu acho que o
Moro é fisiológico, sim”.
Os fatos mostram que Juan estava certo.
Desde que assumiu pasta na camarilha de
Bolsonaro, Moro passou a se especializar em desdizer o que havia dito – a
começar pela recorrente afirmação de que não tinha interesse na política, nem
na presidência. Os fatos mostram o contrário.
Sua firme convicção de que caixa 2 é crime
amoleceu quando a boca na botija era a de Onyx Lorenzoni – o evangélico
espertalhão que tentou roubar os royalties do Rio e São Paulo e que defende que
caixa 2 pode ser perdoado por Deus. É óbvio que, agora, Moro também acredita
nisso.
Sua “exigência” de que o COAF ficasse em
seu ministério virou uma chacota. Seu “projeto anti-crime” foi depenado como
uma galinha, pelo mesmo Congresso que antes saía correndo ao ouvir seu nome. Rodrigo
Maia, fisiológico de família, mandou que Moro calasse a boca e o ex-juiz
obedeceu. A cereja do bolo foi seu flerte com a “Marcha para Jesus”,
parafernália evangélica para simular compunção e fervor.
O juiz que foi temido pelos três poderes
hoje é dócil bobo-da-corte, vestindo camisas de futebol para delírio dos
descerebrados que constituem a maioria da população brasileira.
No Brasil, tudo é enfadonhamente óbvio. Mas
mesmo o óbvio consegue mudar de figurino, de texto e de cenário.
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