Hoje, acordei cedo, às seis,
e fiz um pão caseiro mergulhada em um silêncio, que acabei por estranhar. Na
verdade, as manhãs têm sido ao som de helicópteros sobrevoando o espaço aéreo
do meu bairro e do meu cérebro. A sonoridade da violência, sua presença que
inclui tiros a qualquer hora do dia, e sim, inclusive de manhã, deixando-nos
alertas por onde quer que circulemos, de ônibus, carro, a pé. E apesar da
mínima tranquilidade ter sido sequestrada, aceita-se este estado de coisas,
porque algo se deu. A aceitação do absurdo é uma decorrência do que uns chamam
de indiferença, outros de insensibilidade.
E por quê nos tornamos insensíveis ou indiferentes? Apáticos e
apartados?
Podemos retroagir à formação
de um povo colonizado sob estas e aquelas características, aos nossos ciclos
produtivos monocultores, à extensa escravidão, a grupos políticos predatórios,
às exclusividades. Mas não explicar, justificar ou o que seja, eternamente
porque somos assim, tão pobres e ao mesmo tempo brilhantes, sendo “dor e delícia”,
porque somos originais, frutos de uma mistura aceita e celebrada. Quando
desceremos deste barco encantado, modulado por águas traiçoeiras? Talvez uma
interrupção nesta narrativa seja produtiva, ao menos interessante.
Paremos de nos defender de
uma observação mais incisiva e atenta. Nem o riso, nem o choro. Paremos,
simplesmente. De início, para que se possa perceber o que nos ocorre. Quem sabe
daí, venha um fiapo de alternativa ao que se apresenta? Não, sem pressa alguma
de formular um método, criar um projeto. Interrompendo um fluxo que não nos
revela ou parece não nos revelar, pode acontecer a novidade. Pode ser muito
pouco, mas o suficiente para modificar uma parte do cenário.
Não vote nas próximas
eleições.
Interrompa o tal fluxo.
Surpreenda, a si também.
Não saia de casa para votar.
Não tema o dia seguinte às
eleições, estarão todos lá, inclusive você, afinal você apenas parou.
Algo pode voltar a acontecer.
Isabella Reinert Thomé
12.11.2017