domingo, 19 de novembro de 2017

HOJE

Hoje, acordei cedo, às seis, e fiz um pão caseiro mergulhada em um silêncio, que acabei por estranhar. Na verdade, as manhãs têm sido ao som de helicópteros sobrevoando o espaço aéreo do meu bairro e do meu cérebro. A sonoridade da violência, sua presença que inclui tiros a qualquer hora do dia, e sim, inclusive de manhã, deixando-nos alertas por onde quer que circulemos, de ônibus, carro, a pé. E apesar da mínima tranquilidade ter sido sequestrada, aceita-se este estado de coisas, porque algo se deu. A aceitação do absurdo é uma decorrência do que uns chamam de indiferença, outros de insensibilidade.  E por quê nos tornamos insensíveis ou indiferentes? Apáticos e apartados?

Podemos retroagir à formação de um povo colonizado sob estas e aquelas características, aos nossos ciclos produtivos monocultores, à extensa escravidão, a grupos políticos predatórios, às exclusividades. Mas não explicar, justificar ou o que seja, eternamente porque somos assim, tão pobres e ao mesmo tempo brilhantes, sendo “dor e delícia”, porque somos originais, frutos de uma mistura aceita e celebrada. Quando desceremos deste barco encantado, modulado por águas traiçoeiras? Talvez uma interrupção nesta narrativa seja produtiva, ao menos interessante.

Paremos de nos defender de uma observação mais incisiva e atenta. Nem o riso, nem o choro. Paremos, simplesmente. De início, para que se possa perceber o que nos ocorre. Quem sabe daí, venha um fiapo de alternativa ao que se apresenta? Não, sem pressa alguma de formular um método, criar um projeto. Interrompendo um fluxo que não nos revela ou parece não nos revelar, pode acontecer a novidade. Pode ser muito pouco, mas o suficiente para modificar uma parte do cenário.

Não vote nas próximas eleições.
Interrompa o tal fluxo.
Surpreenda, a si também.
Não saia de casa para votar.
Não tema o dia seguinte às eleições, estarão todos lá, inclusive você, afinal você apenas parou.

Algo pode voltar a acontecer.



Isabella Reinert Thomé

12.11.2017

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