quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O RIO DE JANEIRO PARA ALEMÃO VER



por Fernando Lomardo

     A gente adora ser colônia. A gente adora ser ezótico (assim, com “z”, pra ficar mais exótico). O Globo adora ser um jornalzinho do Brasil Colônia. Basta um estrangeiro deslumbrado (mas travestido de descolado) apontar para a banqueta onde um Dêividi qualquer tomou açaí (pode ser o Byrne, pode ser o Bowie, pode ser o Lynch) que o jornal dá página inteira para a grande revelação.

     A babação da vez é para o guia alemão de uma jornalista alemã falando sobre o Rio. Voltado para o turista alemão que viria para as Olimpíadas, o guia lista 111 locais “para quem quer conhecer a história por trás da  história” (sic). Ficamos sabendo então que condomínios fechados na Barra ou dinossauros de concreto em um parquinho infantil são atrações “por trás da história”. Durma-se.

     Entre os homenageados, a igreja evangélica mais suspeita do mundo e o ladrão autor de um dos maiores assaltos do mundo. Só faltou estender a elegia a quem roubou a cruz de ouro da Providência, mas isso pode ser arriscado, pois não se pode dizer que existe ladrão na favela. É contra o pensamento hegemônico vigente.

     O roteiro é tão hilário que apresenta uma colônia de pescadores onde o produto exemplar é de outro estado. Não foi pescado ali. Não seria então mais coerente fotografar a ostra e esquecer o barquinho? Mas isso não seria pitoresco.

     Das 111 atrações listadas pela autora Beate Kirchner, a matéria cita apenas 20, se considerarmos todo o percurso do último parágrafo. Talvez entre as 91 restantes exista algo que vale a pena. Mas a seleção convocada pelo O Globo parece aquela que tomou de 7 a 1. Curiosamente, de uma seleção alemã.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

É TUDO MENTIRA - RESPOSTA À REVISTA ÉPOCA



por Fernando Lomardo

     A Revista Época sempre gostou de apelar. Quando era assumidamente tucana, fazia matérias de capa sobre o dossiê Cayman, como se alguém estivesse interessado naquela bobagem.

     Agora que se viu, diante da paranóia de toda a mídia, na pretensa obrigação de apoiar o PT (que sempre levou porrada da revista), escancara a hipocrisia com um suplemento (não mais que isso, pois não dá nem para chamar de revista) “político-literário”, que não passa, na verdade, de uma propaganda eleitoral de 100 páginas. Isso tem um nome: propaganda enganosa.

     Vamos deixar de lado, por enquanto, a questão da subliteratura que infesta o panfleto. Não pode se dizer “político” um suplemento que se mostra unilateral e fanático. O adjetivo correto é “literário-petista”, pois nenhum dos textos (eu disse nenhum) analisa prós e contras dos dois candidatos. Só se lê o endeusamento da suposta esquerda, a maior fraude política da história do Brasil, e a demonização do adversário, com clichês de estarrecedora obviedade, como “fascista”, “Hitler”, “torturador” e outros tão previsíveis quanto.

     A falsidade ideológica, a desonestidade intelectual, a impostura cínica escorrem dos artigos como baba de quiabo, a começar pela introdução da página 41. Tratando a propaganda partidária como “ficção”, o textículo tenta alguns truques enganosos para disfarçar que toda a edição significa apenas uma coisa: “vote em Haddad, não vote em Bolsonaro, pelo amor dos santos Lulas”!

     A pretensa ficção que se segue, a cargo de “alguns dos melhores nomes da literatura brasileira contemporânea” (sic) nos faz chorar de pena da literatura brasileira contemporânea. Metáforas rasteiras, alegorias primárias, versos livres de tocante indigência, nos fazem olhar para o teto a cada página, constrangidos pelo descompromisso dos autores. Pode ser que estes campeões da edição alternativa escrevam textos interessantes, quando movidos por suas próprias inspirações. Tomara que sim. Mas como marqueteiros de campanha disfarçados de cronistas políticos, só arrancam do leitor um sorriso de compaixão.

     Resta apenas uma dúvida: de quem terá sido o ato falho que dá título ao panfleto. Estampadas na capa em pálido vermelho, logo abaixo da data falsa (pois o folhetim já estava nas bancas na madrugada do dia da eleição, 28 de outubro de 2018), letras garrafais informam ao leitor o verdadeiro conteúdo: É TUDO MENTIRA.

sábado, 25 de agosto de 2018

RESPOSTA AO REAGE RIO – 2ª. parte



UM TANTO ATRASADO, NEM POR ISSO MENOS IMPORTANTE, O SEGUNDO ARTIGO SOBRE A FARSA INTITULADA "REAGE RIO".

RESPOSTA AO REAGE RIO – 2ª. parte
por Fernando Lomardo, O Apontador

     A capa do caderno especial ReageRio estampa em meia página a bela foto de uma cativante menina de 11 anos com um violino que ela vem aprendendo a tocar em um projeto de inclusão. É o chamariz para a contrapartida social supostamente envolvida no conjunto de medidas ventiladas pelo ReageRio.

     O projeto das UPPs prometeu a mesma coisa. Hoje seu criador controla o butim a partir da penitenciária de Bangu, via Adriana Ancelmo, que continua em casa por benemerência de Marcelo Bretas.

     Ou seja, a situação se repete. Apesar do esforço da polícia e de outras forças de segurança em conter o domínio e a violência do crime organizado, os demais braços do estado não se apresentam para dar conta das necessidades de infra-estrutura e bem estar social das áreas ocupadas. O que ninguém comenta é que essa ausência é de responsabilidade de um estado que, como nos mostram os últimos anos, é omisso de forma intencional. Ou seja, jornalistas e “especialistas” ficam no óbvio de afirmar o que é necessário, sem que se proponha de que maneira realizá-lo. E essa maneira passa pela esfera judicial, pois demanda prisão de criminosos e cassação de mandatos. Voltaremos a esse ponto na conclusão da série.

     A primeira página do caderno, após a bela foto de capa, segue pelo óbvio ululante regado a frases de efeito: “O Rio não quer mais chorar as mortes brutais de suas crianças (...) Não aceita que a corrupção roube recursos da educação e da saúde”. E promete justiça a cavalo: “Mergulhado na maior crise de sua história, o Rio reage”. Ou seja, o jornal acredita que o seminário que ele mesmo promove já é a reação. Simples e mágico assim.

     A página 2 tem como título “Não é de hoje que o Rio e seus cidadãos superam obstáculos”. No entanto, entre as várias referências da página, a única ação efetiva de superação de um obstáculo é a famosa Ação Contra a Fome do Betinho (Herbert de Souza, o “irmão do Henfil”). As outras imagens e textos são sobre eventos ou monumentos: Feira da Providência, Cristo Redentor, blocos de carnaval. Há também uma menção à “tomada do Complexo do Alemão” em 2010 – mas basta ver como está de novo o Alemão, já há uns dois anos, para ver se há alguma superação nisso. Aliás, perguntar não ofende: por quê não colocaram, na época, alguns ônibus penitenciários para levar aquela cambada de bandidos que fugiu pelas tabelas com transmissão de TV e tudo? Aquilo não era um flagrante? Estavam fugindo de quê? Bem, o tempo nos mostrou que, de fato, o espetáculo era o único objetivo.

     Mas o mais interessante nas páginas 2 e 3 são suas epígrafes, as frases-chave que estampam o ideário de quem as proferiu e de quem articula esse movimento renovador. Nas duas páginas, as epígrafes falam no futuro: “fazer um futuro promissor” e “não perdemos o futuro” expõem a incapacidade brasileira de pensar no presente e torná-lo concreto e o eterno comodismo que permite sempre jogar as coisas para amanhã.
     As frases bonitas continuam na página 4: “...democracia é uma construção coletiva”, pensamento que joga mais uma vez a responsabilidade sobre o cidadão, no melhor estilo “faça a sua parte”, sem mencionar que as autoridades públicas brasileiras, intencionalmente, não fazem a sua.

     A página 5 é um anúncio de página inteira: Souza Cruz.

     Na página 6, o coronel Ubiratan Guimarães informa que, desde 1992, dois outros projetos de ocupação de territórios conflagrados também falharam exatamente no mesmo ponto em que falharam as UPPS: a efetivação do apoio social e sócio-educativo após a intervenção policial. Essa renitente ausência do estado corrobora a versão da intencionalidade da omissão: o poder público (vale dizer, seus governantes: Pezão, Dornelles, Cabral, Garotinho, Paes, Crivella, Picciani, Maia e tantos outros antes deles) não é ausente por incompetência. É ausente porque quer ser. O motivo? Nenhuma população pode se mobilizar contra desmandos político-econômicos se está o tempo todo fugindo dos assaltos e das balas achadas.

     Mas não desanimem, pois o “o produto Rio é um ativo incrível”. A marca “RIO” agrega valor. O Rio é um balcão de negócios, e o ReageRio está aí para provar isso: na página 7, mais um anúncio de página inteira, desta vez da Oi, a operadora que conseguiu “falir” sendo dona de mais de 50% das concessões de telefonia do país.

     Nas páginas 8 a 15, muito blá-blá-blá sobre segurança. Os clichês se avolumam em expressões como “sair da zona de conforto”, “valorizar a cultura carioca” ou “é preciso discutir o tamanho do estado”. Parece não ocorrer mesmo a ninguém que o problema está na Criminalidade de Estado, aquele volume ainda imensurável de crimes praticados pelo próprio estado. Não ocorre a nenhum “especialista” que o problema não está em quanto o estado custa, mas sim em quanto o estado desvia. Sem contar que, quando se fala de custo do estado, está se falando sempre de salário de servidores e previdência. Ninguém fala no custo de salários de parlamentares, vereadores e governadores, cargos comissionados, verba de gabinetes, mordomia de parlamentares, custo do judiciário-tartaruga, etc.

     O blá-blá-blá é tão extenso quanto caiba em 4 páginas. Afinal, das 8 páginas aqui compreendidas, 4 são, mais uma vez, de anúncios. Não é uma maravilha para o grupo O Globo-Extra discutir segurança com tantos anunciantes? Nas páginas 12-13 (a folha dupla central do primeiro caderno ReageRio), duas páginas inteiras são pagas pela Fecomércio. Na página 15, já que o assunto é segurança, o anúncio estampa um slogan otimista: “POR UM RIO MAIS SEGURO”. E de quem é esse anúncio? Da CNseg, a Confederação Nacional das Empresas... de Seguros! Entendeu?

     Mas o melhor de todos é o anúncio da página 9. Simplesmente um anúncio de página inteira... do GOVERNO DO ESTADO!

     O quê?!? Mas o Estado do Rio não está sem dinheiro? Quem foi que te falou? O Estado “não tem” dinheiro para pagar o seu salário, trouxa. Vê lá se o Pezão e os deputados estão sem receber. É isso mesmo, o Estado que não tem dinheiro para pagar servidores, não tem dinheiro para pagar aposentados, não repassou o mínimo constitucional para a Saúde, não tem dinheiro para aparelhar a polícia, “precisou” vender a CEDAE, esse mesmo estado tem dinheiro para o spa do Pezão, tem dinheiro para o jatinho do Pezão e tem dinheiro para... anúncio.

     Sim, anúncio.
     Anúncio de página inteira.
     Anúncio de página inteira num caderno especial.
     Anúncio de página inteira num caderno especial do maior jornal do país.
     Pra isso tem dinheiro.
     Reage, Rio.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A INDÚSTRIA DO MERO ABORRECIMENTO

     ESTE ARTIGO É UMA RESPOSTA À MATÉRIA PUBLICADA NA REVISTA ELETRÔNICA DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL.

     A matéria pode ser lida neste link:

por Fernando Lomardo

     Quero dar os parabéns à Ordem dos Advogados do Brasil pela oportuna matéria “Meramente aborrecidos?”, publicada na revista da Ordem em 10/08/2018.

     A matéria aponta para uma grave distorção de nosso Poder Judiciário. Felizmente, a recente teoria do Desvio Produtivo do Consumidor, formulada pelo brilhante advogado Marcos Dessaune, vem sendo gradativamente aceita em diversas ações e juizados. Penso mesmo que a OAB deveria instar por uma plena aceitação deste entendimento, preferencialmente como substitutivo à própria  Súmula 75, incorreta, injusta e tendenciosa.

     No entanto, o assunto pode ser examinado também de um outro ponto de vista.

     A matéria fala em “indústria do mero aborrecimento”. Por mais que a palavra “indústria” exista aqui em sentido figurado, uma consulta ao mais elementar compêndio de Economia ensinará que não existe indústria sem lucro – e esse lucro, dedutivelmente, estará repartido entre os beneficiários do mesmo – entre os quais, se investigarmos a fundo, provavelmente estarão presentes alguns juízes. Um levantamento estatístico poderia apontar a origem (a comarca, o juizado ou mesmo o magistrado, ou juiz-leigo) de uma boa parte, quiçá da maioria, dessas sentenças, que parecem ter como único objetivo beneficiar as grandes empresas que atuam no país e que agem com pouquíssima, ou nenhuma, fiscalização por parte das agências reguladoras, como deve ser de conhecimento desta respeitável instituição que é a OAB. Do mesmo modo que a matéria levanta os 10 principais litigantes, não deve ser difícil (no máximo, trabalhoso) levantar os principais responsáveis pelas sentenças que alimentam a “indústria”.

     Recentemente, a revista digital Crusoé revelou, com abundância de provas, que um determinado ministro do Supremo Tribunal Federal recebe mensalmente uma generosa bonificação em dinheiro da parte do escritório de sua própria esposa, advogada de causas bilionárias. Evidentemente, tal aporte tem como objeto a geração de sentenças favoráveis ao mesmo escritório. Se o “exemplo” vem de cima, o que dizer das instâncias inferiores, menos expostas à publicidade?

     Se temos, como informa a matéria, profissionais do Direito “passando fome” (sic), nada mais justo que a Ordem tente atuar em prol do devido reconhecimento do valor do trabalho advocatício. Entidade respeitada e aguerrida, com histórico de lutas em prol do Estado Democrático de Direito, a OAB poderia propor ao Ministério Público, tanto no âmbito federal como nos âmbitos estaduais, um conjunto de investigações que fornecesse um termômetro sobre a verdadeira lisura do conjunto de sentenças que materializam a chamada “indústria do mero aborrecimento”. As verdadeiras instituições democráticas vem tentando, como se diz no jargão popular, “passar o Brasil a limpo”, e esta pode ser uma oportunidade no sentido da obtenção de um Sistema Judiciário mais transparente, mais coerente, mais acessível e, sobretudo, mais justo.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

IDEOLOGIA DE FACHADA

por Fernando Lomardo

     A CPI da Lava-Jato que circula entre as quadrilhas do congresso nacional formaliza um aspecto que a famosa operação policial já havia escancarado: a solidarieadade entre partidos de todas as cores, quando se trata de combater a legalidade. Quando se trata de política nacional, a união faz o crime.

     Idealizada pelo PT e rapidamente encampada por todos os outros ratos, desesperados para fugir da lei, a CPI pretende encontrar meios para imobilizar a maior operação de combate à corrupção jamais vista no Ocidente. Pois é matemático que a operação brasileira, em número de investigados, indiciados, condenados, presos e também em volume de dinheiro recuperado, já superou em muito a sua inspiradora, a italiana Mani Pulite.

     Ameaçados pela eficácia e pela resiliência da Polícia Federal e do Ministério Público, políticos se unem sem preconceito de legenda e sem preocupação em disfarçar seu matiz ideológico. Isso torna explícito o que já era sabido por todos: não há nenhuma ideologia em nenhuma assembléia ou câmara de nenhuma das três esferas (município, estado e união). Apenas as “bases” do facebook repetem tolices como esquerda ou direita, socialismo e capitalismo, etc. Bobagem. Ideologia, na política brasileira, é coisa tão de fachada quanto as empresas-fantasmas abertas apenas para lavar dinheiro roubado.

     O mesmo se dá no Supremo Teatro Federal. Para ficar no exemplo mais óbvio: Dias Toffoli e Lewandowski, ligados ao PT, e Gilmar Mendes, ligado ao PSDB, formam um trio de freiras que entoam um canto uníssono de enfadonha previsibilidade. Não precisamos sequer acompanhar a sessão para conhecer seu voto. Juntos formam a maior frente de defesa da criminalidade, sem esquecer Marco Aurélio Melo, e isso não só nos casos de corrupção: baste lembrar que Marco Aurélio soltou Bruno do Flamengo, notório assassino e esquartejador da ex-namorada.

     É sabido que CPIs no Brasil são apenas cortina de fumaça. Quando algum escândalo envolve algum político com poder de decisão, rapidamente seus pares inventam uma CPI para desviar a atenção de público e imprensa. Nenhuma CPI, em nenhum momento da história, nunca concluiu nada, condenou ninguém nem chegou a qualquer resultado. São tão inúteis quanto o congresso que as engendra.

     Mas neste caso, é possível que esta CPI chegue a alguma coisa, pois tem o atributo de reunir todos os membros do congresso nacional, solidariamente unidos para manter a roubalheira e a mamata que sustentam seus mandatos imprestáveis.   

domingo, 8 de abril de 2018

ELEIÇÃO SEM LULA É MISERICÓRDIA

por Fernando Lomardo 

    É típica da internet a utilização, equivocada ou mal-intencionada, de palavras de impacto. São palavras usadas a esmo, sem qualquer noção sobre seu significado, mas que pretendem manifestar convicção ideológica e, principalmente, agredir. Obviamente o PT, com seus 14 anos no poder, colaborou muito para esse uso inconsistente do vocabulário. Uma proposta educacional em que “nóis pega o pêxe” é expressão de livro didático, pretende alcançar em algum prazo a descaracterização do sentido da linguagem, de forma similar à Novilíngua, do “1984” de Orwell.

     Também com a intenção de facilitar o voto de cabresto, o PT tirou a Educação do campo de jogo e colocou no lugar as palavras de ordem.  “Golpe”, “fraude” e “fascista” estão entre as preferidas de petistas. São atiradas sobre todos que entenderam que Lula é culpado (pois não se trata de crença, e sim de cognição), sobre todos que concluíram, de forma óbvia, seu enquadramento na Ficha Limpa, ou mesmo contra os que pedem investigação sobre qualquer petista. É justo investigar Aécio Neves, mas investigar Gleisi Hoffman é fascismo. É lícito prender Eduardo Cunha, mas prender José Dirceu é a volta da ditadura. E a Lei da Ficha Limpa não pode valer para Lula, mesmo que fique solto. O que querem, na verdade, é tirá-lo  das eleições.

     Vai ser bom para Lula não participar das eleições. Foi destroçado em 2016. O maior exemplo foi seu poste paulista, Fernando Haddad, nocauteado por João Dória no primeiro minuto do primeiro round. Convenhamos que ser humilhado por Dória, nanico em todos os sentidos, é para fazer o sujeito desistir da vida pública.

     Não o PT. Pautado invariavelmente pela farsa e pela encenação, o partido ignora solenemente os fatos e sai gabando-se de eterna vitória.

     Lula não elegeu ninguém em 2016. Todos os candidatos em cujo palanque ele subiu não chegaram sequer ao segundo turno. Não elegeu ninguém nem em São Bernardo, seu berço político. Seu candidato a prefeito ficou em terceiro lugar, e seu filho (!!!) não obteve nem metade da votação mínima para vereador. O mesmo se deu pelo Brasil afora, à exceção de dois ou três vilarejos do Nordeste, onde “nóis pega o bôlça-familha”.

     O Datafolha Instituto de Petistas (sic) coloca Lula em primeiro lugar nas intenções de voto. Mas as manifestações em sua defesa, nos últimos dias, mostram bem o contrário. Mesmo a militância que foi ao Sindicato defender seu Capo foi frustrante. Arredondando os números para facilitar o cálculo: o Brasil tem 100 milhões de eleitores. O maior colégio eleitoral do país é São Paulo – que é também a sede política de Lula. No momento em que o líder é preso (preso!), quantos gatos pingados foram lá? Cinco mil? Dez mil? Que sejam vinte mil. Não é pouco para quem supostamente detém 40 milhões de votos? Não é pouco para alguém sobre quem se dizia que sua prisão iria “parar o país”?

     A prisão de Lula só parou a programação da TV, que ficou dois dias acompanhando seu circo. Fora isso, o país segue do mesmo jeito descaralhado de antes. O que deu errado na promessa de tocar fogo no Brasil?

     A presença de Lula nas eleições só serviria para carimbar sua queda. Pode ser que ainda confirmemos esse fato. A jogatina institucional do país é tão intensa e tão venal que Lula ainda pode ser solto e sua ficha suja ser cancelada. Se isso ocorrer, veremos um massacre eleitoral. A diversão, então, será ver qual a desculpa que o PT vai inventar.

     Eleição sem Lula não é fraude. É misericórdia.