sábado, 2 de dezembro de 2017

O EXCESSO DE JUDICIALIZAÇÃO

O EXCESSO DE JUDICIALIZAÇÃO

Isabella Reinert Thomé

    O excesso de “judicialização” deve-se sobretudo à ausência do Estado na observância de irregularidades. Esta ausência não ocorre por outro motivo que não seja a perpetuação de privilégios, historicamente forjados em um arremedo de democracia.

     Quando as empresas oferecem serviços de qualidade duvidosa, caros e repletos de irregularidades, o cidadão recorre ao Procon, mas acaba engrossando os corredores do Judiciário. As empresas certamente têm um departamento que afere o equilíbrio entre seu lucro e suas perdas judiciais, e como a balança lhes é favorável, o jogo segue.

     Você já viu alguma empresa perder uma concessão por reiterados maus serviços prestados? A Supervia da Odebrecht ou qualquer outra? Faz uma idéia de quantas ações contra empresas de telefonia e bancos estão em curso? O Judiciário está afogado em processos, os juízes, dignos de pena, reclamam porque, para começar, são muitíssimo mal pagos, e os professores já estudam uma forma de doação para esta classe combalida. Contribua você também.

     Em uma outra ponta estão os advogados, muitos advogados. Estes profissionais sacrificados não conseguem, na sua maioria, manter individualmente a estrutura de um escritório e juntam-se a outros, sendo responsáveis por um grande número de ações. Desta arquitetura da penúria surge aquele profissional que vai à audiência, mas não sabe ao certo de que mérito se trata. O que não muda muito, porque tudo é mais uma questão de sorte do que de qualquer outra coisa. Sorte de não pegar um conciliador ou juiz-leigo que não privilegie a fala da empresa, sorte de a empresa já trazer um acordo – ou você já viu algum conciliador promover a conciliação?
     E uma vez que tenha êxito na causa, sorte a sua se tiver ânimo para uma proxima vez. Porque ela virá.


     Sim, está tudo ligado. O Estado ganha com a concessão, o Judiciário incha com mais juizes e funcionários, as faculdades de má qualidade formam fileiras de advogados, os cursos preparatórios de concurso proliferam, e você vota. Vota para fortalecer um sistema político apodrecido, ao invés de negá-lo. Você paga impostos altíssimos, mas fica feliz em não ser inadimplente. Agradece aos deuses o fato de ainda estar empregado, e finalmente vai se aposentar com míseros trocados, porque é o que merece. Seus desiguais, donos de aposentadorias polpudas nas três esferas, continuarão inatingíveis seja qual for a Reforma em questão. E tudo, do Estado corrupto ao juiz, passando pela empresa que age com má fé e o advogado para chamar de seu, tudo poderia ser diferente, se você vislumbrasse o poder que tem. Ou não, mas ninguém sabe o gosto que tem se não experimentar.