domingo, 17 de novembro de 2019

ENGENHARIA DE UM CRIME


por Isabella Reinert Thomé

     Assisti a um documentário na Globonews sobre a tragédia de Brumadinho, vista a partir dos bombeiros que trabalharam e ainda trabalham nos locais afetados.
     Foi publicado um livro de dois jornalistas, Lucas Ragazzi e Murilo Rocha: o livro-reportagem “Brumadinho - a engenharia de um crime”. Você ouviu falar deste livro? Eu, apenas agora, decorrente dessa breve pesquisa.
     O nosso grau de empatia é extremamente pequeno, e não me refiro à ajuda material. Refiro-me a responsabilidade como cidadão. Ao fato de não se relacionar o ocorrido com a ação governamental, fato ensejado pela escolha de palavras como "acidente", "tragédia" e similares, quando, sim, trata-se de um crime, como menciona o título do livro. Um crime cometido por uma empresa, que tem que ser fiscalizada pelo governo. Mas não só. Existem profissionais que assinaram projetos e laudos, e estes têm responsabilidade. Vários são os responsáveis que precisam ser punidos por negligência.
     Ou seja, existem culpados e punição para seus crimes. Além da empresa, o governo que há anos também negligencia a atividade mineradora. Há anos, porque o famigerado governo do PT, mais “preocupado” com o ser humano, agiu friamente, e não interditou a atividade da Vale e da Samarco, no caso de Mariana. Novamente, a Vale em Brumadinho, e a tolerância com o intolerável. E a constatação de que todas as siglas partidárias envolvidas nos governos agem com a mesma leniência, o mesmo descaso com o cidadão.
     E os cidadãos? Se tiver uma votação amanhã, as pessoas sairão de suas casas para votar. Sequer pensam em, simplesmente, criar um precedente, expor a fragilidade de um sistema político que urge mudar. NADA. E mais uma vez, a famigerada polarização vai se acentuar, porque o político “justo” acabou de ser libertado e já está pronto para o palanque de mentiras. O presidente que escolhe os piores nomes para estar à frente dos ministérios, não mudou a relação com as mineradoras, e embora signifique um retrocesso geral, a Vale e outras contam com a mesma postura governamental. Vidas são números. Quando muito, votos.
     Na minha conta do Facebook onde este texto foi inicialmente publicado, apenas tratarei de fatos relacionados ao meio-ambiente, porque se relacionam com a matéria-prima da Belluga Perfumaria. Naturalmente que, ao fazer isso, os aspectos políticos existentes em qualquer situação serão tocados.
     Ouvir, ver essas pessoas que lidaram e lidam com esta dor, lembra-me que a impunidade praticada pelo executivo, pelo judiciário e pelo legislativo não pode ser naturalizada. Não se pode esquecer, não se pode deixar de cobrar a punição dos responsáveis.
     A falta de memória nos destrói. Portanto, também por isso, a insistência sobre a empatia que nos fortalece, nos estrutura. Precisamos não esquecer e cobrar o devido respeito, juntos.

domingo, 29 de setembro de 2019

OS PALHAÇOS DO CIRCO TRUMP


por Fernando Lomardo

     Em termos de freak show, nada se compara ao “governo” Jair Bolsonaro. Seu “ministério” é um desfile de horrores de fazer a Mulher Barbada comprar uma caixa de giletes na hora.

     Damares Alves fala em azul e rosa e abre uma concorrência para arrumar um marido. Ernesto Araújo não sabe o que é aquecimento global e faz piadinhas ignorantes sobre o risco ao planeta. Sérgio Moro revelou-se uma fraude institucional tão escandalosa quanto o desmonte da Previdência. Marco Ponte, corajoso para ir à Lua, é um covarde quando se trata de defender o que é caro à Ciência brasileira. Ricardo Lessa acha que o problema da Amazônia é que, sem queimadas, o ribeirinho não tem o que comer. E Abrão Intraube, o miniztro da educassao, mau sabi açinar o propo nômi.

     Pasmem, no entanto, que enquanto aqui só temos essa lamentável atração de bizarrices, os Estados Unidos usufruem de um muito bem montado circo. Mas isso não deve nos surpreender – afinal, lá é a terra do entertainment.

     A surpresa é que a grande atração desse espantoso circo são dois brasileiros: os impagáveis palhaços Jair e Eduardo Bolsonaro.

     Jair Bolsonaro não gosta de homossexuais. Pelo menos, é o que ele diz. Pra ele, a homoafetividade deve ser varrida da face da Terra. No entanto, esse rei da lambança, incapaz de manifestar afeição por quem quer que seja, é capaz de dizer “I love you” para um homem – desde que esse homem seja o presidente dos Estados Unidos. Não tenho dúvidas de que o capitão estaria disposto mesmo a mudar sua orientação sexual se fosse por ordem do cabelinho de milho. É ou não é um inesquecível número cômico?

     Mas nada supera, no universo da escrotidão, o número que presenciamos na semana passada, na cidade de New York, no prédio da ONU. Brincando de embaixador como uma menina que brinca de casinha, Eduardo Bolsonaro fez o gesto da “arminha” que tem notabilizado sua família de palhaços políticos. A questão é que ele fez isso em frente à escultura “Não violência”, do artista Carl Fredrik Reuterswärd, que mostra um revólver com um nó no cano. A obra é um convite ao desarmamento, e foi pensada como uma homenagem a John Lennon. Vou partir do princípio de que mesmo as jovens gerações não precisam que eu explique quem foi esse artista admirável, que teve sua vida interrompida de forma covarde e violenta aos 40 anos de idade.

     Donald Trump é um adepto da política do “balas para todos” – de preferência, bem no meio da testa. Certamente despreza John Lennon e deve considerá-lo um hippie maconheiro ou qualquer coisa parecida com isso. Mas sabe muito bem que as intituições americanas não são a Casa da Mãe Joana, como as brasileiras; jamais iria, portanto, praticar um gesto ofensivo em um monumento que homenageia um homem assassinado a tiros.

     Mas na verdade Trump não precisa fazer isso, pois tem quem faça por ele. Eduardo Bolsonaro, rematado palerma, configuração mais acabada de um completo imbecil, está sempre pronto a fazer uma micagem para agradar ao patrão alaranjado. E seu número tragicômico tende sempre a melhorar – depois da reação internacional ao seu peido fotográfico, o palhacinho que cagou fora do pinico tentou limpar tudo com as mãos: “E se John Lennon estivesse armado?”, arriscou o estrupício, fingindo ignorar que o músico não teve nenhuma chance: o assassino, covarde como todo assassino, pediu um autógrafo e atirou à queima-roupa, logo depois que Lennon devolveu-lhe a caneta e o papel assinado.

     Tristes somos nós, que elegemos uma cambada de patifes capaz de fazer o PT e o PSDB parecerem um bando de amadores. Feliz é Donald Trump, que tem a seu serviço dois bobos da corte capazes de amá-lo acima de tudo e de lamber o chão pisado pelo boneco de cera do Queens. A Terra é plana, o Pai é americano, o Filho anda armado e o Espírito Santo tem calibre 38.

domingo, 30 de junho de 2019

A QUEDA DA CASA DO ÓBVIO


por Fernando Lomardo




    Fui entusiasta da atuação de Sérgio Moro. Classifiquei-o, a quem quis ouvir, como a personalidade mais importante do Brasil no século XXI. Pareceu de fato que ele, assim como o procurador Deltan Dallagnol, mudava paradigmas em relação ao modo como a Justiça tratava criminosos de foro branco e colarinho privilegiado – ou o contrário, se preferirem, já que no Brasil nada é o que parece ser.

     Recentemente, o jornalista Glenn Greenwald e seu site The Intercept (espécie de regra-3 do WikiLeaks, cujo criador Julian Assange parece estar fudido para o resto da vida, agora que o Equador entregou sua cabeça na bandeja) revelaram trocas de mensagens entre membros da Operação Lava-Jato – particularmente, entre Moro e Dallagnol, escancarando que ambos, de fato, centraram o maior poder de fogo das suas investigações em membros do então governo do PT. Muito obviamente, em Luís Inácio da Silva.

     Pode-se questionar a legalidade da ação do site multinacional. Pode-se afirmar que fatos registrados ilegalmente não constituem provas. Pode-se, no sentido inverso, questionar que, do mesmo modo como Moro e Dallagnol foram seletivos em suas ações, The Intercept seleciona muito rigorosamente a quem atacar. Do mesmo modo como muitos perguntavam porque a Lava-Jato visava tanto o PT (à parte os óbvios desvios de dinheiro público), pode-se agora perguntar porque os seguidores de Edward Snowden não revelam as óbvias interferências de Vladimir Pútin (que dá asilo a Snowden) na eleição de Donald Trump. Talvez não interesse escancarar o troca-troca entre a Rússia “de esquerda” e a “direita” norte-americana – ainda mais com um norte-coreano no meio. Mas não estamos aqui para falar de política internacional.

     Muita coisa pode ser questionada, menos a veracidade do levantamento divulgado por Greenwald. Mesmo que algumas mensagens possam ter sido “adaptadas”, mesmo que um detalhe ou outro de data ou horário possa ter sido alterado (e o próprio Intercept já reconheceu erros de “digitação” (!!!)), o núcleo do furo jornalístico mostrou-se indiscutível – e desde o início, Moro e Dallagnol foram forçados a mergulhar em workshops de contorcionismo para explicar o inexplicável. Evidentemente, cada explicação só piorava a lambança, como quem caga fora do pinico e depois tenta limpar tudo com a mão.

     A consequência era óbvia: a conduta ilícita do juiz e do procurador colocaram sub-júdice a autenticidade da Operação Lava-Jato, a primeira atuação conjunta de Polícia Federal, Ministério Público, Receita Federal e Poder Judiciário a mandar para a cadeia, com abundância de provas, gente do porte de Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Beto Richa, Marcelo Odebrecht, Adriana Ancelmo, Jacob Barata, Eike Batista, Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cortes, Jorge Picciani, Anthony Garotinho... a lista é extensa. Alguns deles foram soltos por compadrio entre advogados e juízes de altas cortes, mas seus processos continuam rolando e devem ter novas consequências – como os recentes que enquadraram, mesmo que brevemente, Michel Temer e Moreira Franco – e qual “esquerdista” não terá comemorado isso?

     Quer dizer então que a Lava-Jato não “perseguiu” só o PT? Parece óbvio que não. Mas houve uma estratégia especial para encontrar provas contra Lula? Parece óbvio que sim. Isso significa que as provas contra Lula foram forjadas? É óbvio que não.

     Pessoalmente, nunca precisei da Lava-Jato para reconhecer Lula como um criminoso, desde seu óbvio envolvimento com o mensalão em 2005 (e pelo qual ele nunca foi sequer investigado). O mesmo se deu, para citar o exemplo mais óbvio, com Sérgio Cabral. Bastavam a renovação por 49 anos (!?) do contrato da Supervia, a despeito dos péssimos serviços da concessionária, ou a venda de toda a folha de pagamento do Estado do Rio para o Bradesco, para tornar óbvias as relações inconfessáveis entre o governo do Rio e o grande empresariado. Mesmo assim, ainda levou muitos anos até que o dublê de governador e quadrilheiro fosse encaminhado à sua residência oficial em Bangu.

     Ou seja, sempre foram mais do que óbvias as relações de banditismo entre o politicado e o grande empresariado brasileiros, binômio no qual Lula é apenas o componente mais célebre e carismático – jamais o único. Como canta o sambinha popular, “se gritar pega-ladrão, não fica um”. Neste ambiente, Moro e a força-tarefa da Lava Jato despontavam como exemplo de lisura, imparcialidade e rigor técnico. Parecia óbvia a incorruptibilidade deste grupo.

     A divulgação do The Intercept pareceu demonstrar o contrário. Mas aqui é necessário separar o indivíduo do conjunto. A Operação Lava-Jato não é só Sérgio Moro, muito menos Deltan Dallagnol.

     A operação começa com investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal no Paraná, mas desdobra-se em inúmeras investigações por vários estados e que envolvem também a Receita Federal. São, na verdade, algumas centenas de responsáveis pelas investigações. E ao contrário do que afirmam os detratores, as provas estão longe de se resumirem a delações: envolvem documentos físicos, como transferências bancárias, contas-laranja, extratos bancários de paraísos fiscais, notas frias, empresas de fachada, declarações de renda, grampos telefônicos, imagens de áudio e vídeo – ou terá sido forjada a imagem de Rocha Loures com a mala de dinheiro, para dar o exemplo mais óbvio?

    No caso específico de Lula, as perguntas são simétricas: Lula foi alvo porque a elite não gosta de ver pobre viajando de avião? Ou foi alvo porque roubou tanto que não deu para esconder todas as provas?

     As provas são inúmeras e irrefutáveis, e não se trata aqui de torcer para um time. Negar as evidências contra Lula equivale a negar as evidências contra Moro. A Operação Lava-Jato não forjou provas contra Lula, mas obviamente centrou esforços em buscá-las e encontrá-las. Nesse processo, o site de Greenwald vem demonstrando que Sérgio Moro ultrapassou vários limites da ética judicial. Justamente aquela personalidade que parecia despontar como exemplo de conduta teve aberto seu telhado de vidro para a pedraria generalizada. Como consequência nefasta, impôs um telhado de vidro, não merecido, para toda a Operação.

     Ergo, o problema aqui não é a Lava-Jato.

     Ergo, o problema aqui é Sérgio Moro e a sua absoluta e surpreendente semelhança com o pior da política brasileira.

     Este senhor já havia mandado uma bola por cima da arquibancada ao aceitar participar da Barca dos Desajustados de Jair Bolsonaro, verdadeiro freak-show que não pode ser chamado de governo. Aqui, eu mesmo poderia ter ouvido a voz da juventude, por quem fala a experiência que nós, velhos, já esquecemos. Quando Bolsonaro anunciou a nomeação do juiz para o Ministério da Justiça, comentei com meu filho Juan: “ele [Bolsonaro] pensa que Moro é tão fisiológico quanto ele mesmo”. Juan respondeu: “pois eu acho que o Moro é fisiológico, sim”.

     Os fatos mostram que Juan estava certo.

     Desde que assumiu pasta na camarilha de Bolsonaro, Moro passou a se especializar em desdizer o que havia dito – a começar pela recorrente afirmação de que não tinha interesse na política, nem na presidência. Os fatos mostram o contrário.

     Sua firme convicção de que caixa 2 é crime amoleceu quando a boca na botija era a de Onyx Lorenzoni – o evangélico espertalhão que tentou roubar os royalties do Rio e São Paulo e que defende que caixa 2 pode ser perdoado por Deus. É óbvio que, agora, Moro também acredita nisso.

     Sua “exigência” de que o COAF ficasse em seu ministério virou uma chacota. Seu “projeto anti-crime” foi depenado como uma galinha, pelo mesmo Congresso que antes saía correndo ao ouvir seu nome. Rodrigo Maia, fisiológico de família, mandou que Moro calasse a boca e o ex-juiz obedeceu. A cereja do bolo foi seu flerte com a “Marcha para Jesus”, parafernália evangélica para simular compunção e fervor.

     O juiz que foi temido pelos três poderes hoje é dócil bobo-da-corte, vestindo camisas de futebol para delírio dos descerebrados que constituem a maioria da população brasileira.

     No Brasil, tudo é enfadonhamente óbvio. Mas mesmo o óbvio consegue mudar de figurino, de texto e de cenário.

terça-feira, 9 de abril de 2019

O SUPREMO DA DITADURA



por Fernando Lomardo

     Em 22 de março de 2019, Nelson Motta publicou em sua coluna, no jornal O Globo, um texto pateticamente intitulado “O Supremo do Vovô”. Não há nada demais que alguém queira elogiar um parente. Causa mais estranheza que um jornal de grande circulação desperdice espaço com uma rasgação de seda do netinho. Mas isso também está de acordo com a frivolidade geral de nossa imprensa.

     O mais surpreendente, porém, é que Nelsinho esqueceu alguns aspectos importantes ao elogiar não só Vovô, mas também os amigos do Vovô. Esqueceu que, além do “notável saber jurídico e reputação ilibada” (sic), além da ausência de “brigas em plenário e de egos em ebulição” (sic), aquele era um Supremo que jamais condenou um acusado rico ou poderoso. Um Supremo que jamais olhou para crimes de colarinho branco. Em bom português, era o Supremo da ditadura militar.

     E Nelsinho também esqueceu, estrategicamente, que Evandro Lins e Silva foi o defensor de Doca Street, o assassino de Ângela Diniz. O dublê de advogado e ministro precisou não tanto de saber jurídico, mas principalmente de sua rede de influências para ressuscitar a odiosa figura da “legítima defesa da honra”, segundo a qual qualquer homem pode matar qualquer mulher desde que tenha grana para pagar advogados de reputação ilibada.

     Isso sim é um dream team.  

sábado, 9 de março de 2019

BOLSONARO E LULA, DUAS FACES DA MESMA MOEDA


por Fernando Lomardo
O Apontador

     O eleitor de Bolsonaro é muito semelhante ao eleitor de Lula. O governo Jair Bolsonaro é igual ao governo do PT.

     Completamente acrítico, o eleitor de Bolsonaro acredita que as medidas bombásticas, porém totalmente inócuas de seu ídolo (sim, porque trata-se de idolatria e não de posicionamento político) configuram algo parecido com o ato de governar. Na verdade, o governo Bolsonaro vai sendo tocado pelos grandes empresários, defendendo seus interesses através da conivência da Câmara, do Senado e do Poder Judiciário. Exatamente como nos governos do PT.

     Da mesma forma, esses governos se assemelham em sua tática de promover cortinas de fumaça a partir de fatos desimportantes para encobrir o que realmente importa: medidas e projetos de lei que gradativamente restringem o rendimento pecuniário do cidadão, ao mesmo tempo em que aumentam o do grande empresariado e o dos políticos e juízes em geral.

     Varia apenas a cor da fumacinha: os governos do PT usavam supostas políticas públicas e discursos inflados de “empoderamento” para esconder suas verdadeiras ações: a carta branca a todos os abusos do grande empresariado e a roubalheira desenfreada revelada pela Lava-Jato. O governo Bolsonaro usa sua moral-e-civismo de araque para esconder suas verdadeiras intenções: a carta branca a todos os abusos do grande empresariado e a continuidade das mamatas entre Executivo, Legislativo e Judiciário, em nome da perpetuação de privilégios e mordomias – às vezes de forma legal, às vezes ilegal, mas de qualquer modo, sempre imoral. Principalmente para um governo que se diz o dono da Moralidade. Preocupa-se com uma idiotice gay no carnaval. Mas não com depósitos bancários inexplicáveis do filhinho ou com um Ministro da Casa Civil confesso em Caixa 2.

     Sustentando tanto um quanto outro, uma torcida fanática (sim, porque trata-se de fanatismo e não de ideologia) e sem rigorosamente nenhum senso crítico, com diferenças, mais uma vez, apenas de tonalidade: uma se diz “de esquerda” (palavra, hoje, totalmente vazia de sentido), outra se diz “de direita” (palavra, hoje, totalmente vazia de sentido).

     Movendo essa roda, no estandarte, a efígie do “líder popular” tão tipicamente brasileiro: tanto Bolsonaro quanto Lula encarnam o “sélfi-mêidi-mêm” brasileiro, que veio “de baixo”, um pouco tosco, um tanto ignorante, com um brilhoso verniz aplicado pelo marketing, mas com a capacidade de falar “a linguagem do povo”, de forma “direta” e “sem rodeios”.

     A “linguagem” do mesmo “povo” que eles, lenta e inexoravelmente, extorquem e exploram com um largo sorriso de propaganda no rosto.