Queria
saber o que se passa na cabeça da assessoria jurídica de deputados e senadores
da nossa suposta oposição. A União (e não jair bolsonaro, pois este tem foro
privilegiado) deveria ser acionada judicialmente a cada vez que o miliciano
abre a boca – ele ou qualquer integrante de sua milícia. "São os índios
que botam fogo na floresta". "Ah, é? Vai ter que provar". Tome
ação na justiça. "Homossexuais têm famílias desajustadas". Vai ter
que provar. Ação na justiça. "Essa gripe é para covardes". Prove.
Ação na justiça. E por aí vai. Mas nossa oposição, historicamente, tem medo de
se posicionar de forma radical. Vêm sempre com a conversinha do
"diálogo". Se enchermos esse governo (através da União, que pode ser
acionada em primeira instância) de ações judiciais, o mínimo que se pode
conseguir é arrancar um pouco da grana que eles querem dar para os bancos. Em
tempo: por que a demônia Sadama Servel não está presa, após expor a
privacidade, a integridade física e moral e a vida mesmo de uma criança de 10
anos? O foro por prerrogativa de função é anulado em caso de crime flagrante;
onde estava a oposição no momento do ato criminoso? Ah, sei: os assessores
jurídicos estão sempre muito ocupados em livrar os parlamentares da Polícia
Federal.
domingo, 27 de setembro de 2020
FECHANDO A BOCA DA MILÍCIA
sexta-feira, 5 de junho de 2020
NOSSAS OLIGARQUIAS FAMILIARES
por Fernando Lomardo, O Apontador
O Pará tem Barbalho. O Maranhão tem
Sarney. Minas Gerais tem Neves. Alagoas tem Calheiros. São Paulo tem Covas. O
Rio de Janeiro tem Maia.
A política brasileira é composta por
feudos que se eternizam no poder. O coronelismo supostamente ultrapassado, tão
detalhadamente descrito por Jorge Amado e Érico Veríssimo, troca de terno ao
longo das décadas e permanece comandando o jogo apodrecido do fatiamento do
dinheiro público. Pais elegem seus filhos que reelegem seus filhos que
contratam seus filhos que nomeiam seus filhos, e parentes e amigos entram junto
de roldão na festa do fisiologismo democrático.
A foto que ilustra o artigo é emblemática
dos conluios entre políticos e famílias poderosas na divisão dos dividendos do
parasitismo. Foto do saudoso Jornal do Brasil, janeiro de 2002. O atual
presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, (recentemente mencionado em
delação do dono da Gol Linhas Aéreas) em descontraida balada com amigos. Seu
pai, César Maia, era na ocasião prefeito do Rio de Janeiro, em seu segundo
mandato. Foram três no total, além de Senado, vereança, etc.
Os amigos de Maia filho: Rick Amaral,
filho de Ricardo Amaral, o “rei da noite” (proprietário de boates lendárias,
como New York City, Pappagaio’s, Hippopotamus, etc); e Kim Peixoto de Castro.
Aqui está uma das chaves do cofre.
A família Peixoto de Castro foi uma das
mais ricas do país, proprietária, entre outras coisas, da Refinaria de Manguinhos.
Por algum motivo entrou em processo de recuperação judicial. Um de seus
“varões” é investigado na Lavajato. Por esse motivo uma das acionistas do
grupo, a Sky Investment, entrou com ação judicial para afastar o patriarca
Paulo César do Conselho Administrativo. Outros dois membros da família foram
acionados pelas ex-esposas por não pagamento de pensão aos filhos. Tutte buona
gente.
A inofensiva nota social foi publicada na
coluna de Márcia Peltier, que foi casada com Carlos Arthur Nuszman – aquele que
foi preso por roubar dinheiro da Olimpíada do Rio, lembram?
É o círculo infinito de nosso sistema
político-empresarial. Grandes políticos são amigos de grandes empresários que
são amigos de grandes jornalistas que são amigos de grandes politicos que são
amigos...
Mantendo o movimento do círculo, famílias
que se perpetuam ad aeternum. Pai que elege filho que nomeia amigo que contrata
outro amigo... e la nave va.
O Pará tem Barbalho. O Maranhão tem
Sarney. Minas Gerais tem Neves. Alagoas tem Calheiros. São Paulo tem Covas. O
Rio de Janeiro tem Maia.
O Brasil inteiro, no momento, tem
Bolsonaro.
quarta-feira, 22 de abril de 2020
ALGUÉM ESTÁ REALMENTE PENSANDO EM MUDANÇA?
por Fernando Lomardo
Ator, Produtor Cultural e Arte-Educador
Uma preocupação pra lá de curiosa vem
ocupando nosso diligente noticiário. Uma parte dele (excetuando-se as emissoras
que apoiam bolsonaro e portanto não enxergam um palmo à frente do nariz) vem
perguntando se a epidemia de Covid-19 poderá alterar nosso comportamento em um
futuro próximo. Intelectuais do momento, como Leandro Karnal e Mário Sérgio
Cortella, são requisitados para explicar, com seu arcabouço acadêmico, se a
peste chinesa vai trazer no rescaldo algum novo paradigma ético na conduta do
megavírus conhecido como Civilização.
Perplexo em meu continuado isolamento
social (eu que nunca fui muito de aglomeração, tendo sempre preferido um livro,
uma cachaça, minha família e meus gatos), me pergunto o por quê da pergunta. A
alta taxa de mortalidade, os sepultamentos em covas coletivas, a tensão
constante pelo risco do contágio, a paralisação da mobilidade e dos serviços, a
economia em frangalhos, poderão gerar um Novo Homem, uma Nova Sociedade, um
Novo Comportamento, uma Nova Ética? Ainda não entendi quem foi o mágico que
tirou de qual cartola essa pergunta inútil.
A gripe espanhola seria apenas um dos
inúmeros exemplos. Depois de matar sei lá quantos milhões de pessoas há cem
anos, qual foi o saldo ético disso? Alguém citaria algum? Podemos recuar ou avançar no
tempo. As inúmeras pestes que assolaram a Europa na Idade Média e no
Renascimento. A febre amarela no Brasil, entre o XIX e o XX. As várias gripes
que a China tem exportado nos últimos 20 anos. Isso mudou alguma coisa? Trouxe
uma nova ética? Um novo recomeço?
Por quantas guerras a humanidade já
passou? Quantos milhões, talvez bilhões de mortos? E de feridos? Mutilados? Aleijados?
Famílias destroçadas? Cidades destruídas? Economias paralíticas? Condições de
sobrevivência interditadas, interrompidas, impossibilitadas? E o que foi que
mudou após tudo isso?
Os exemplos podem ser globais ou
circunscritos. Mal se passara um quarto de século que a Alemanha havia
provocado a Primeira Guerra Mundial, quando arrumou logo a segunda. Tudo bem,
eram outros agentes, mas era o mesmo país, e sobretudo era a mesma “Humanidade”.
Não deu pra aprender nada com 1914-1919? Não, não deu. Assim como não deu pra
aprender nada com 1939-1945.
Os Estados Unidos melhoraram alguma coisa
após as guerras da Coréia e do Vietnã? Ou apenas passaram a escolher adversários mais fracos
(Granada, Iraque, El Salvador) para vilipendiar?
O Brasil tem, ao longo de sua trajetória
de 500 anos de “civilização”, uma das mais devastadoras desigualdades socio-econômicas
da história da humanidade. Essa desigualdade tem como consequência, sabemos
todos, uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo. Os milhares de
mortos anualmente pela violência urbana, em números superiores a muitas
guerras, trazem algum novo comportamento? Alguma nova ética? Compreendemos a
necessidade de coesão e empatia, ou continuamos cagando para o vizinho e
jogando o lixo na porta dele?
A renitência da humanidade é ampla, geral
e irrestrita. Sabemos que estamos errados, sabemos por que e sabemos como. Mas
corrigir comportamentos nocivos é, isso sim, um ato de verdadeiro esforço e
coragem. Não é qualquer um que consegue. A grande maioria nem tenta. Isso vale
para o Brasil, para o Mundo e, se houver seres humanos em Marte, vale para eles
também.
Podem tirar o pocotó da chuva. A
humanidade não vai mudar NADA. O
brasileiro não vai mudar NADA. Nossos
políticos não vão mudar NADA. Todos
continuarão medíocres e idiotizados, pensando no próprio estômago e no Flamengo,
em amarrar o burro na sombra e se dar bem de alguma forma. Nossos três poderes
continuarão usando seus cargos para desviar dinheiro e para criar leis que
favoreçam a eles mesmos. Nosso grande empresariado continuará bolando novas
formas de extorquir dinheiro, sempre em nome do mercado e com o apoio dos três
poderes. A classe média continuará desorientada e burra, repetindo clichês do
tipo “onde nós vamos parar”? Os favelados, de quem tanto se fala hoje,
coitadinhos, continuarão preocupados em rebolar a bunda no baile funk. A
Imprensa continuará colocando o senso comum acima da inteligência. A Educação
continuará uma merda, a Saúde continuará uma Doença, o Meio Ambiente será
gradativamente exterminado e as crianças continuarão não existindo – apenas
quando se tornarem “o adulto de amanhã”, espertalhões, metidos a malandro,
barrigudos e safados e repetindo, com um sorriso pretensioso, que “todo mundo
rouba, eu vou roubar também”, pois isso é tudo que nossa sociedade consegue
ensinar.
O Covid-19 é só mais uma doença. Terrível,
tentacular, indiscriminada, tão assustadora quanto o câncer e a AIDS já o
foram. Mas é apenas mais uma. Não é a pior. Nossa pior Doença somos nós mesmos.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
NÃO DÁ PRA ACENDER DUAS VELAS
por Fernando Lomardo
“O
Inquisidor: As cidades marítimas pedem os mapas de Galileu com urgência.
Vai ser preciso ceder, são interesses materiais.
O Papa: Não se pode condenar
a doutrina e aceitar os mapas.
O Inquisidor: Como não? Não
se pode é fazer outra coisa!”
Da peça teatral "Vida de Galileu", de Bertolt Brecht
Depois de se escandalizar com os
xingamentos diários de Jair Bolsonaro, de gargalhar com o cocô na boca do
presidente, de se estarrecer com o ministério mais inqualificável da história
do país, de se constranger com as demonstrações ininterruptas de ignorância e
burrice, de se aviltar com as inúmeras suspeitas de corrupção e de outros
crimes praticados pelo chefe do executivo e por sua família, agora o Brasil
assiste, mais uma vez perplexo, ao pronunciamento do secretário de cultura
Roberto Alvim.
Para
além do tom superlativo-pentecostal que infecta o discurso de todos os que
participam ou estão ligados a este governo, com as costumeiras tolices sobre
fé, pátria e deus, etc, o pronunciamento traz implícitas a agressão e a ameaça
constitutivas dos regimes totalitários, em formulações do tipo “a cultura será
o que queremos ou não será nada”. Apesar de promover um plágio descarado de um
texto de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Adolph Hitler, o discurso
se aproxima também das doutrinações do realismo-socialista da União Soviética,
responsável pelo assassinato de muitos artistas, o mais célebre deles o
encenador Vsevolod Meyerhold. O que importa aqui não é a orientação à direita
ou à esquerda do regime, mas seu autoritarismo e violência.
Isto
posto, não se esperava outra coisa deste secretário. Não se esperava outra
coisa de um governo que já manifestou seu desprezo pela democracia, pela
população que a ele se opõe, pelos direitos humanos, pela imprensa, pela
segurança pública. Não se esperava outra coisa de um governo que usa o discurso
de Deus, de Pátria e de Família para mascarar seus interesses econômicos,
exatamente como o Golpe de 64 que ele vive elogiando. E é aqui que reside o X
da questão.
Porque os interesses econômicos deste
governo são também os interesses econômicos de uma parte da sociedade. De uma
parte óbvia, como o grande empresariado (inclua-se aqui as igrejas evangélicas),
mas também de uma parte velada, como a grande maioria da imprensa. Assim, o
jornalismo brasileiro se escandaliza quando Bolsonaro xinga um jornalista, para
em seguida elogiar a “economia em recuperação”; se envergonha quando o
presidente ofende uma primeira-dama, mas comemora bobagens como a indicação à
OCDE; fica chocado quando o secretário ofende um ícone do teatro como Fernanda
Montenegro, mas goza de prazer quando Paulo Guedes fala no mercado.
Parte da sociedade, inclua-se nossa
imprensa, se comporta como o Inquisidor do texto de Brecht que abre esse artigo:
quer condenar a teoria científica, mas defender os “interesses materiais”
advindos da mesma.
No caso da estrutura perversa que governa
o país, não dá pra acender duas velas. Não se pode condenar a fala nazista do
Secretário de Cultura enquanto se elogia o desmonte neoliberal da Previdência. É
impossível que a sociedade não se coloque de forma unânime e taxativa contra
todo o conjunto da obra. Esse governo já mostrou a que veio, e é hora de cortar
suas asas antes que seja tarde demais.
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