sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

NÃO DÁ PRA ACENDER DUAS VELAS



por Fernando Lomardo

     O Inquisidor: As cidades marítimas pedem os mapas de Galileu com urgência. Vai ser preciso ceder, são interesses materiais.
     O Papa: Não se pode condenar a doutrina e aceitar os mapas.
     O Inquisidor: Como não? Não se pode é fazer outra coisa!”


Da peça teatral "Vida de Galileu", de Bertolt Brecht

     Depois de se escandalizar com os xingamentos diários de Jair Bolsonaro, de gargalhar com o cocô na boca do presidente, de se estarrecer com o ministério mais inqualificável da história do país, de se constranger com as demonstrações ininterruptas de ignorância e burrice, de se aviltar com as inúmeras suspeitas de corrupção e de outros crimes praticados pelo chefe do executivo e por sua família, agora o Brasil assiste, mais uma vez perplexo, ao pronunciamento do secretário de cultura Roberto Alvim.
     Para além do tom superlativo-pentecostal que infecta o discurso de todos os que participam ou estão ligados a este governo, com as costumeiras tolices sobre fé, pátria e deus, etc, o pronunciamento traz implícitas a agressão e a ameaça constitutivas dos regimes totalitários, em formulações do tipo “a cultura será o que queremos ou não será nada”. Apesar de promover um plágio descarado de um texto de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Adolph Hitler, o discurso se aproxima também das doutrinações do realismo-socialista da União Soviética, responsável pelo assassinato de muitos artistas, o mais célebre deles o encenador Vsevolod Meyerhold. O que importa aqui não é a orientação à direita ou à esquerda do regime, mas seu autoritarismo e violência.
     Isto posto, não se esperava outra coisa deste secretário. Não se esperava outra coisa de um governo que já manifestou seu desprezo pela democracia, pela população que a ele se opõe, pelos direitos humanos, pela imprensa, pela segurança pública. Não se esperava outra coisa de um governo que usa o discurso de Deus, de Pátria e de Família para mascarar seus interesses econômicos, exatamente como o Golpe de 64 que ele vive elogiando. E é aqui que reside o X da questão.
     Porque os interesses econômicos deste governo são também os interesses econômicos de uma parte da sociedade. De uma parte óbvia, como o grande empresariado (inclua-se aqui as igrejas evangélicas), mas também de uma parte velada, como a grande maioria da imprensa. Assim, o jornalismo brasileiro se escandaliza quando Bolsonaro xinga um jornalista, para em seguida elogiar a “economia em recuperação”; se envergonha quando o presidente ofende uma primeira-dama, mas comemora bobagens como a indicação à OCDE; fica chocado quando o secretário ofende um ícone do teatro como Fernanda Montenegro, mas goza de prazer quando Paulo Guedes fala no mercado.
     Parte da sociedade, inclua-se nossa imprensa, se comporta como o Inquisidor do texto de Brecht que abre esse artigo: quer condenar a teoria científica, mas defender os “interesses materiais” advindos da mesma.
     No caso da estrutura perversa que governa o país, não dá pra acender duas velas. Não se pode condenar a fala nazista do Secretário de Cultura enquanto se elogia o desmonte neoliberal da Previdência. É impossível que a sociedade não se coloque de forma unânime e taxativa contra todo o conjunto da obra. Esse governo já mostrou a que veio, e é hora de cortar suas asas antes que seja tarde demais.

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