por Fernando Lomardo
Ator, Produtor Cultural e Arte-Educador
Uma preocupação pra lá de curiosa vem
ocupando nosso diligente noticiário. Uma parte dele (excetuando-se as emissoras
que apoiam bolsonaro e portanto não enxergam um palmo à frente do nariz) vem
perguntando se a epidemia de Covid-19 poderá alterar nosso comportamento em um
futuro próximo. Intelectuais do momento, como Leandro Karnal e Mário Sérgio
Cortella, são requisitados para explicar, com seu arcabouço acadêmico, se a
peste chinesa vai trazer no rescaldo algum novo paradigma ético na conduta do
megavírus conhecido como Civilização.
Perplexo em meu continuado isolamento
social (eu que nunca fui muito de aglomeração, tendo sempre preferido um livro,
uma cachaça, minha família e meus gatos), me pergunto o por quê da pergunta. A
alta taxa de mortalidade, os sepultamentos em covas coletivas, a tensão
constante pelo risco do contágio, a paralisação da mobilidade e dos serviços, a
economia em frangalhos, poderão gerar um Novo Homem, uma Nova Sociedade, um
Novo Comportamento, uma Nova Ética? Ainda não entendi quem foi o mágico que
tirou de qual cartola essa pergunta inútil.
A gripe espanhola seria apenas um dos
inúmeros exemplos. Depois de matar sei lá quantos milhões de pessoas há cem
anos, qual foi o saldo ético disso? Alguém citaria algum? Podemos recuar ou avançar no
tempo. As inúmeras pestes que assolaram a Europa na Idade Média e no
Renascimento. A febre amarela no Brasil, entre o XIX e o XX. As várias gripes
que a China tem exportado nos últimos 20 anos. Isso mudou alguma coisa? Trouxe
uma nova ética? Um novo recomeço?
Por quantas guerras a humanidade já
passou? Quantos milhões, talvez bilhões de mortos? E de feridos? Mutilados? Aleijados?
Famílias destroçadas? Cidades destruídas? Economias paralíticas? Condições de
sobrevivência interditadas, interrompidas, impossibilitadas? E o que foi que
mudou após tudo isso?
Os exemplos podem ser globais ou
circunscritos. Mal se passara um quarto de século que a Alemanha havia
provocado a Primeira Guerra Mundial, quando arrumou logo a segunda. Tudo bem,
eram outros agentes, mas era o mesmo país, e sobretudo era a mesma “Humanidade”.
Não deu pra aprender nada com 1914-1919? Não, não deu. Assim como não deu pra
aprender nada com 1939-1945.
Os Estados Unidos melhoraram alguma coisa
após as guerras da Coréia e do Vietnã? Ou apenas passaram a escolher adversários mais fracos
(Granada, Iraque, El Salvador) para vilipendiar?
O Brasil tem, ao longo de sua trajetória
de 500 anos de “civilização”, uma das mais devastadoras desigualdades socio-econômicas
da história da humanidade. Essa desigualdade tem como consequência, sabemos
todos, uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo. Os milhares de
mortos anualmente pela violência urbana, em números superiores a muitas
guerras, trazem algum novo comportamento? Alguma nova ética? Compreendemos a
necessidade de coesão e empatia, ou continuamos cagando para o vizinho e
jogando o lixo na porta dele?
A renitência da humanidade é ampla, geral
e irrestrita. Sabemos que estamos errados, sabemos por que e sabemos como. Mas
corrigir comportamentos nocivos é, isso sim, um ato de verdadeiro esforço e
coragem. Não é qualquer um que consegue. A grande maioria nem tenta. Isso vale
para o Brasil, para o Mundo e, se houver seres humanos em Marte, vale para eles
também.
Podem tirar o pocotó da chuva. A
humanidade não vai mudar NADA. O
brasileiro não vai mudar NADA. Nossos
políticos não vão mudar NADA. Todos
continuarão medíocres e idiotizados, pensando no próprio estômago e no Flamengo,
em amarrar o burro na sombra e se dar bem de alguma forma. Nossos três poderes
continuarão usando seus cargos para desviar dinheiro e para criar leis que
favoreçam a eles mesmos. Nosso grande empresariado continuará bolando novas
formas de extorquir dinheiro, sempre em nome do mercado e com o apoio dos três
poderes. A classe média continuará desorientada e burra, repetindo clichês do
tipo “onde nós vamos parar”? Os favelados, de quem tanto se fala hoje,
coitadinhos, continuarão preocupados em rebolar a bunda no baile funk. A
Imprensa continuará colocando o senso comum acima da inteligência. A Educação
continuará uma merda, a Saúde continuará uma Doença, o Meio Ambiente será
gradativamente exterminado e as crianças continuarão não existindo – apenas
quando se tornarem “o adulto de amanhã”, espertalhões, metidos a malandro,
barrigudos e safados e repetindo, com um sorriso pretensioso, que “todo mundo
rouba, eu vou roubar também”, pois isso é tudo que nossa sociedade consegue
ensinar.
O Covid-19 é só mais uma doença. Terrível,
tentacular, indiscriminada, tão assustadora quanto o câncer e a AIDS já o
foram. Mas é apenas mais uma. Não é a pior. Nossa pior Doença somos nós mesmos.
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