quarta-feira, 22 de abril de 2020

ALGUÉM ESTÁ REALMENTE PENSANDO EM MUDANÇA?


por Fernando Lomardo
Ator, Produtor Cultural e Arte-Educador

     Uma preocupação pra lá de curiosa vem ocupando nosso diligente noticiário. Uma parte dele (excetuando-se as emissoras que apoiam bolsonaro e portanto não enxergam um palmo à frente do nariz) vem perguntando se a epidemia de Covid-19 poderá alterar nosso comportamento em um futuro próximo. Intelectuais do momento, como Leandro Karnal e Mário Sérgio Cortella, são requisitados para explicar, com seu arcabouço acadêmico, se a peste chinesa vai trazer no rescaldo algum novo paradigma ético na conduta do megavírus conhecido como Civilização.

     Perplexo em meu continuado isolamento social (eu que nunca fui muito de aglomeração, tendo sempre preferido um livro, uma cachaça, minha família e meus gatos), me pergunto o por quê da pergunta. A alta taxa de mortalidade, os sepultamentos em covas coletivas, a tensão constante pelo risco do contágio, a paralisação da mobilidade e dos serviços, a economia em frangalhos, poderão gerar um Novo Homem, uma Nova Sociedade, um Novo Comportamento, uma Nova Ética? Ainda não entendi quem foi o mágico que tirou de qual cartola essa pergunta inútil.

     A gripe espanhola seria apenas um dos inúmeros exemplos. Depois de matar sei lá quantos milhões de pessoas há cem anos, qual foi o saldo ético disso? Alguém citaria algum? Podemos recuar ou avançar no tempo. As inúmeras pestes que assolaram a Europa na Idade Média e no Renascimento. A febre amarela no Brasil, entre o XIX e o XX. As várias gripes que a China tem exportado nos últimos 20 anos. Isso mudou alguma coisa? Trouxe uma nova ética? Um novo recomeço?

     Por quantas guerras a humanidade já passou? Quantos milhões, talvez bilhões de mortos? E de feridos? Mutilados? Aleijados? Famílias destroçadas? Cidades destruídas? Economias paralíticas? Condições de sobrevivência interditadas, interrompidas, impossibilitadas? E o que foi que mudou após tudo isso?

     Os exemplos podem ser globais ou circunscritos. Mal se passara um quarto de século que a Alemanha havia provocado a Primeira Guerra Mundial, quando arrumou logo a segunda. Tudo bem, eram outros agentes, mas era o mesmo país, e sobretudo era a mesma “Humanidade”. Não deu pra aprender nada com 1914-1919? Não, não deu. Assim como não deu pra aprender nada com 1939-1945.

     Os Estados Unidos melhoraram alguma coisa após as guerras da Coréia e do Vietnã? Ou apenas passaram a escolher adversários mais fracos (Granada, Iraque, El Salvador) para vilipendiar?

     O Brasil tem, ao longo de sua trajetória de 500 anos de “civilização”, uma das mais devastadoras desigualdades socio-econômicas da história da humanidade. Essa desigualdade tem como consequência, sabemos todos, uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo. Os milhares de mortos anualmente pela violência urbana, em números superiores a muitas guerras, trazem algum novo comportamento? Alguma nova ética? Compreendemos a necessidade de coesão e empatia, ou continuamos cagando para o vizinho e jogando o lixo na porta dele?

     A renitência da humanidade é ampla, geral e irrestrita. Sabemos que estamos errados, sabemos por que e sabemos como. Mas corrigir comportamentos nocivos é, isso sim, um ato de verdadeiro esforço e coragem. Não é qualquer um que consegue. A grande maioria nem tenta. Isso vale para o Brasil, para o Mundo e, se houver seres humanos em Marte, vale para eles também.

     Podem tirar o pocotó da chuva. A humanidade não vai mudar NADA. O brasileiro não vai mudar NADA. Nossos políticos não vão mudar NADA. Todos continuarão medíocres e idiotizados, pensando no próprio estômago e no Flamengo, em amarrar o burro na sombra e se dar bem de alguma forma. Nossos três poderes continuarão usando seus cargos para desviar dinheiro e para criar leis que favoreçam a eles mesmos. Nosso grande empresariado continuará bolando novas formas de extorquir dinheiro, sempre em nome do mercado e com o apoio dos três poderes. A classe média continuará desorientada e burra, repetindo clichês do tipo “onde nós vamos parar”? Os favelados, de quem tanto se fala hoje, coitadinhos, continuarão preocupados em rebolar a bunda no baile funk. A Imprensa continuará colocando o senso comum acima da inteligência. A Educação continuará uma merda, a Saúde continuará uma Doença, o Meio Ambiente será gradativamente exterminado e as crianças continuarão não existindo – apenas quando se tornarem “o adulto de amanhã”, espertalhões, metidos a malandro, barrigudos e safados e repetindo, com um sorriso pretensioso, que “todo mundo rouba, eu vou roubar também”, pois isso é tudo que nossa sociedade consegue ensinar.

     O Covid-19 é só mais uma doença. Terrível, tentacular, indiscriminada, tão assustadora quanto o câncer e a AIDS já o foram. Mas é apenas mais uma. Não é a pior. Nossa pior Doença somos nós mesmos.

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