segunda-feira, 4 de setembro de 2017

RESPOSTA AO REAGE RIO


RESPOSTA AO REAGE RIO – 2ª. parte
por Fernando Lomardo, O Apontador

    Continuamos analisando o ReageRio, seminário de negócios promovido pelos jornais O Globo-Extra, com patrocínio de várias empresas, entre elas a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, que nada mais é do que uma empresa.

     A capa do caderno especial ReageRio estampa em meia página a bela foto de uma cativante menina de 11 anos com um violino que ela vem aprendendo a tocar em um projeto de inclusão. É o chamariz para a contrapartida social supostamente envolvida no conjunto de medidas ventiladas pelo ReageRio.

     O projeto das UPPs prometeu a mesma coisa. Hoje seu criador controla o butim a partir da penitenciária de Bangu, via Adriana Ancelmo, que continua em casa por benemerência de Marcelo Bretas.

     Ou seja, a situação se repete. Apesar do esforço da polícia e de outras forças de segurança em conter o domínio e a violência do crime organizado, os demais braços do estado não se apresentam para dar conta das necessidades de infra-estrutura e bem estar social das áreas ocupadas. O que ninguém comenta é que essa ausência é de responsabilidade de um estado que, como nos mostram os últimos anos, é omisso de forma intencional. Ou seja, jornalistas e “especialistas” ficam no óbvio de afirmar o que é necessário, sem que se proponha de que maneira realizá-lo. E essa maneira passa pela esfera judicial, pois demanda prisão de criminosos e cassação de mandatos. Voltaremos a esse ponto na conclusão da série.

     A primeira página do caderno, após a bela foto de capa, segue pelo óbvio ululante regado a frases de efeito: “O Rio não quer mais chorar as mortes brutais de suas crianças (...) Não aceita que a corrupção roube recursos da educação e da saúde”. E promete justiça a cavalo: “Mergulhado na maior crise de sua história, o Rio reage”. Ou seja, o jornal acredita que o seminário que ele mesmo promove já é a reação. Simples e mágico assim.

     A página 2 tem como título “Não é de hoje que o Rio e seus cidadãos superam obstáculos”. No entanto, entre as várias referências da página, a única ação efetiva de superação de um obstáculo é a famosa Ação Contra a Fome do Betinho (Herbert de Souza, o “irmão do Henfil”). As outras imagens e textos são sobre eventos ou monumentos: Feira da Providência, Cristo Redentor, blocos de carnaval. Há também uma menção à “tomada do Complexo do Alemão” em 2010 – mas basta ver como está de novo o Alemão, já há uns dois anos, para ver se há alguma superação nisso. Aliás, perguntar não ofende: por quê não colocaram, na época, alguns ônibus penitenciários para levar aquela cambada de bandidos que fugiu pelas tabelas com transmissão de TV e tudo? Aquilo não era um flagrante? Estavam fugindo de quê? Bem, o tempo nos mostrou que, de fato, o espetáculo era o único objetivo.

     Mas o mais interessante nas páginas 2 e 3 são suas epígrafes, as frases-chave que estampam o ideário de quem as proferiu e de quem articula esse movimento renovador. Nas duas páginas, as epígrafes falam no futuro: “fazer um futuro promissor” e “não perdemos o futuro” expõem a incapacidade brasileira de pensar no presente e torná-lo concreto e o eterno comodismo que permite sempre jogar as coisas para amanhã.
     As frases bonitas continuam na página 4: “...democracia é uma construção coletiva”, pensamento que joga mais uma vez a responsabilidade sobre o cidadão, no melhor estilo “faça a sua parte”, sem mencionar que as autoridades públicas brasileiras, intencionalmente, não fazem a sua.

     A página 5 é um anúncio de página inteira: Souza Cruz.

     Na página 6, o coronel Ubiratan Guimarães informa que, desde 1992, dois outros projetos de ocupação de territórios conflagrados também falharam exatamente no mesmo ponto em que falharam as UPPs: a efetivação do apoio social e sócio-educativo após a intervenção policial. Essa renitente ausência do estado corrobora a versão da intencionalidade da omissão: o poder público (vale dizer, seus governantes: Pezão, Dornelles, Cabral, Garotinho, Paes, Crivella, Picciani, Maia e tantos outros antes deles) não é ausente por incompetência. É ausente porque quer ser. O motivo? Nenhuma população pode se mobilizar contra desmandos político-econômicos se está o tempo todo fugindo dos assaltos e das balas achadas.

     Mas não desanimem, pois o “o produto Rio é um ativo incrível”. A marca “RIO” agrega valor. O Rio é um balcão de negócios, e o ReageRio está aí para provar isso: na página 7, mais um anúncio de página inteira, desta vez da Oi, a operadora que conseguiu “falir” sendo dona de mais de 50% das concessões de telefonia do país.

     Nas páginas 8 a 15, muito blá-blá-blá sobre segurança. Os clichês se avolumam em expressões como “sair da zona de conforto”, “valorizar a cultura carioca” ou “é preciso discutir o tamanho do estado”. Parece não ocorrer mesmo a ninguém que o problema está na Criminalidade de Estado, aquele volume ainda imensurável de crimes praticados pelo próprio estado. Não ocorre a nenhum “especialista” que o problema não está em quanto o estado custa, mas sim em quanto o estado desvia. Sem contar que, quando se fala de custo do estado, está se falando sempre de salário de servidores e previdência. Ninguém fala no custo de salários de parlamentares, vereadores e governadores, cargos comissionados, verba de gabinetes, mordomia de parlamentares, custo do judiciário-tartaruga, etc.

     O blá-blá-blá é tão extenso quanto caiba em 4 páginas. Afinal, das 8 páginas aqui compreendidas (da 8ª à 15ª), 4 são, mais uma vez, de anúncios. Não é uma maravilha para o grupo econômico O Globo-Extra discutir segurança com tantos anunciantes? Nas páginas 12-13 (a folha dupla central do primeiro caderno ReageRio), duas páginas inteiras são pagas pela Fecomércio. Na página 15, já que o assunto é segurança, o anúncio estampa um slogan otimista: “POR UM RIO MAIS SEGURO”. E de quem é esse anúncio? Da CNseg, a Confederação Nacional das Empresas... de Seguros! Entendeu?

     Mas o melhor de todos é o anúncio da página 9. Simplesmente um anúncio de página inteira... do GOVERNO DO ESTADO!

     O quê? O Estado do Rio de Janeiro está sem dinheiro? Quem foi que te falou? O Estado “não tem” dinheiro para pagar o seu salário, trouxa. Vê lá se o Pezão e os deputados estão sem receber. É isso mesmo, o Estado que não tem dinheiro para pagar servidores, não tem dinheiro para pagar aposentados, não repassou o mínimo constitucional para a Saúde, não tem dinheiro para aparelhar a polícia, que “precisou” vender a CEDAE, esse mesmo estado tem dinheiro para o spa do Pezão, tem dinheiro para o jatinho do Pezão e tem dinheiro para... anúncio.

     Sim, anúncio.
     Anúncio de página inteira.
     Anúncio de página inteira num caderno especial.
     Anúncio de página inteira num caderno especial do maior jornal do país.
     Pra isso tem dinheiro.
     Reage, Rio.

 RESPOSTA AO REAGE-RIO – 1ª. PARTE
por Fernando Lomardo

  Um sinal de que a racionalidade neo-liberal  avança
é a extensão, na linguagem corrente e na cultura,
 do léxico empresarial e da gestão.
Christian Laval, sociólogo, em entrevista ao jornal O Globo.

     Jornal O Globo, edição de domingo, 27 de agosto de 2017. Na página 18, uma entrevista com o empresário e publicitário Roberto Medina. Na página 41, a propaganda de um auto-propalado projeto de recuperação do Rio de Janeiro moribundo. Não é preciso ser um gênio para compreender o link.
     De fato, Medina é um dos convidados (ou mentores) do ReageRio, um seminário de dois dias reunindo “especialistas” para encontrar soluções para a recuperação do Rio de Janeiro moribundo.
     Na entrevista, o empresário apregoa sua genial invenção da pólvora: a criação de um calendário turístico para o Rio. Na defesa de seu projeto, Medina reproduz de forma exemplar o comportamento definido pelos pensadores franceses Dardot e Laval, expresso de forma resumida na epígrafe acima. O pensamento dito neo-liberal está presente em tudo. Absolutamente tudo tem que virar negócio, tem que virar dinheiro. Assim, o Rio de Janeiro não é uma cidade, é um “produto”. Não é uma cidade desesperada, é um “ativo”. É curioso que Medina afirme que o Rio não tem conteúdo, pois isso é precisamente o que falta ao seu discurso. Quase todas as suas respostas se baseiam em números. O Rio de Janeiro é mensurável em reais, dólares e euros. Só falta alguém (provavelmente ele mesmo) com tino comercial suficiente para transformar a teoria em transferências bancárias.
 
     Mas o rei do rock in Rio está longe de ser o único a pensar dessa forma. Todos os participantes do evento promovido pelo grupo econômico Globo-Extra, com patrocínio da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (entenda-se, nesse caso, dinheiro público) e de outras empresas, só entendem a linguagem dos “produtos”, “ativos” e “negócios”. A idéia é transformar o Rio de Janeiro, que estrebucha junto às crianças e policiais mortos, em um mega-balcão. O “léxico empresarial e da gestão” impregna cada milímetro dos bate-papos que preenchem as horas vazias desse seminário.

     Mas o jargão puramente empresarial nunca consegue ir muito longe sem seu maquiador pessoal: o cinismo politicamente correto. É preciso uma boa contrapartida social, não só para disfarçar a sanha desenfreada por “ativos”, mas também para descontar algum do imposto de renda e, por que não, para que ONGs, OSCIPs e entidades sem fins lurativos possam participar da partilha do boi. É convocada então a Força Especial Vocabular, que policia ostensivamente o entorno com palavras como “social”, “cidadania”, “resgate” e outras de igual valor prosaico.

     O resultado dos dois dias de “debates” saiu no Globo na forma de um caderno de 42 páginas. Onze delas são de anúncios – mais do que a quarta parte, para quem gosta de números.

     Analisando superficialmente os primeiros sintomas (nem é preciso aprofundar muito, na verdade), salta aos olhos que a Alerj seja um dos patrocinadores, a mesma Alerj co-responsável pelo destroçamento intencional do Estado. Salta aos olhos que o Estado, que “não tem dinheiro pra nada”, segundo seus “gestores”, possa pagar um anúncio de página inteira em um caderno especial de um dos maiores jornais do país. Ao mesmo tempo, em todo o caderno, nem uma única palavra de combate à alta criminalidade, aquela praticada pelas altas esferas de governo e que é a verdadeira responsável pela suposta crise – na verdade, um saque generalizado aos cofres públicos.

    Essa postagem vai analisar, nos próximos dias, as 42 páginas de “produto” dos debates. Os artigos, os especialistas, as 50 propostas “concretas”. Vamos dissecar, mesmo que de forma breve, esse cadáver que nasce não apenas morto, mas já podre, enquanto a profecia de William Silva Lima se concretiza diturnamente.

     Os rega-bofes ao final dos debates certamente foram fartos e caros. Com patrocínio da Alerj, que precisa vender a CEDAE para pagar o jatinho do Pezão. Lamentamos apenas a ausência, por motivos óbvios, de Maria Antonieta, perguntando porque o povo carioca não come brioches.