por Fernando Lomardo, O Apontador
O traficante Fernandinho Beira Mar, em
recente entrevista coletiva, defendeu as profundas reformas que promoveu em sua
administração como chefe do Poder Paralelo: “Estamos modernizando o tráfico.
Realizamos algumas das mais arrojadas reformas que o tráfico jamais viu. O
tráfico não vai parar, continuamos trabalhando dia e noite para recolocar o
tráfico nos trilhos, em direção ao futuro”.
Claro que o parágrafo acima é uma ficção.
Certamente a reação seria de escândalo (a começar pela imprensa) se o indivíduo
em questão declarasse algo dessa natureza.
Desenhei essa cena de Teatro do Absurdo por
analogia com o absurdo que vivemos na cena real: ninguém se escandaliza (muito
menos a imprensa) ao ver o chefe do Poder Executivo, investigado por crimes que
se estendem ao longo de, no mínimo, quatro anos (desde sua eleição até os
recentes casos de suborno ativo e passivo) mentir na televisão dizendo que está
modernizando o país. Além da mentira explícita (pois tudo que se discute hoje,
no Congresso, é “como escapar da Lava-Jato”), alguém envolvido em crimes de tal
envergadura não tem condições de modernizar nem o banheiro de sua casa.
Não é difícil, no entanto, compreender a
razão de tal ausência da capacidade de se escandalizar. É que todo o discurso
oficial dos chamados “formadores de opinião” se concentra em fantasias
semelhantes de modernização, reformas e futuro. O discurso acrítico, que repete
a necessidade de reformas e associa tais reformas a uma suposta modernidade que
alicerçará um suposto futuro, mantém todos antenados: os especialistas da
imprensa e do meio acadêmico com os corruptos dos Três Poderes. É como se fosse
possível decupar a atuação de Michel Temer, assim como a do Congresso, de forma
bem esquizofrênica: como políticos, são corruptos; como administradores, podem
conduzir o país ao “futuro”, através de “reformas” essenciais para o país não
“quebrar”. Como se fosse possível qualquer tipo de legislação ser levada a
sério com ESTE congresso e com ESTE presidente.
Não vou repetir aqui que a reforma da
Previdência é um achismo que não encontra respaldo nos números, nem que a
reforma trabalhista é um oportunismo inventado pelo grande empresariado, nem
que qualquer reforma política séria é impossível com um congresso vendido. A “inteligência”
dos jornais, revistas e institutos continuará repetindo o velho bordão do
“reformar hoje para não precisar reformar amanhã”. Só que este discurso não
está apoiado sobre nenhum dado concreto. Apoia-se apenas no velho vício cultural do Brasil do futuro,
do gigante adormecido, do amanhã que virá. Não nos preocupamos com o “hoje”, o
Brasil sempre tem tempo.
Vou repetir apenas o que todos também já
sabem: que não existe crise, existe crime; que o país não está quebrado, está
roubado; que o dinheiro que falta em todo lugar está em contas no exterior e em
malas entregues em pizzarias.
Nossa imprensa, nossa “inteligência”,
nossos “especialistas”, gostam de posar de moderados. Assistem ao maior desvio
de dinheiro público da história alisando o queixo, como quem analisa uma nova
espécie de cogumelo. Enquanto isso, papagaiam como autômatos o discurso da
“crise”. Esqueçam o futuro, meus caros. Esqueçam a modernidade. Com o tamanho
do roubo institucional, se não recuperarmos nossa capacidade de reagir
firmemente a escândalos, não haverá “amanhã” para “reformar”.