por Fernando Lomardo
“O
Inquisidor: As cidades marítimas pedem os mapas de Galileu com urgência.
Vai ser preciso ceder, são interesses materiais.
O Papa: Não se pode condenar
a doutrina e aceitar os mapas.
O Inquisidor: Como não? Não
se pode é fazer outra coisa!”
Da peça teatral "Vida de Galileu", de Bertolt Brecht
Depois de se escandalizar com os
xingamentos diários de Jair Bolsonaro, de gargalhar com o cocô na boca do
presidente, de se estarrecer com o ministério mais inqualificável da história
do país, de se constranger com as demonstrações ininterruptas de ignorância e
burrice, de se aviltar com as inúmeras suspeitas de corrupção e de outros
crimes praticados pelo chefe do executivo e por sua família, agora o Brasil
assiste, mais uma vez perplexo, ao pronunciamento do secretário de cultura
Roberto Alvim.
Para
além do tom superlativo-pentecostal que infecta o discurso de todos os que
participam ou estão ligados a este governo, com as costumeiras tolices sobre
fé, pátria e deus, etc, o pronunciamento traz implícitas a agressão e a ameaça
constitutivas dos regimes totalitários, em formulações do tipo “a cultura será
o que queremos ou não será nada”. Apesar de promover um plágio descarado de um
texto de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Adolph Hitler, o discurso
se aproxima também das doutrinações do realismo-socialista da União Soviética,
responsável pelo assassinato de muitos artistas, o mais célebre deles o
encenador Vsevolod Meyerhold. O que importa aqui não é a orientação à direita
ou à esquerda do regime, mas seu autoritarismo e violência.
Isto
posto, não se esperava outra coisa deste secretário. Não se esperava outra
coisa de um governo que já manifestou seu desprezo pela democracia, pela
população que a ele se opõe, pelos direitos humanos, pela imprensa, pela
segurança pública. Não se esperava outra coisa de um governo que usa o discurso
de Deus, de Pátria e de Família para mascarar seus interesses econômicos,
exatamente como o Golpe de 64 que ele vive elogiando. E é aqui que reside o X
da questão.
Porque os interesses econômicos deste
governo são também os interesses econômicos de uma parte da sociedade. De uma
parte óbvia, como o grande empresariado (inclua-se aqui as igrejas evangélicas),
mas também de uma parte velada, como a grande maioria da imprensa. Assim, o
jornalismo brasileiro se escandaliza quando Bolsonaro xinga um jornalista, para
em seguida elogiar a “economia em recuperação”; se envergonha quando o
presidente ofende uma primeira-dama, mas comemora bobagens como a indicação à
OCDE; fica chocado quando o secretário ofende um ícone do teatro como Fernanda
Montenegro, mas goza de prazer quando Paulo Guedes fala no mercado.
Parte da sociedade, inclua-se nossa
imprensa, se comporta como o Inquisidor do texto de Brecht que abre esse artigo:
quer condenar a teoria científica, mas defender os “interesses materiais”
advindos da mesma.
No caso da estrutura perversa que governa
o país, não dá pra acender duas velas. Não se pode condenar a fala nazista do
Secretário de Cultura enquanto se elogia o desmonte neoliberal da Previdência. É
impossível que a sociedade não se coloque de forma unânime e taxativa contra
todo o conjunto da obra. Esse governo já mostrou a que veio, e é hora de cortar
suas asas antes que seja tarde demais.