quarta-feira, 5 de julho de 2017

FUTURICISMO, MODERNICISMO E REFORMICISMO



por Fernando Lomardo, O Apontador

     O traficante Fernandinho Beira Mar, em recente entrevista coletiva, defendeu as profundas reformas que promoveu em sua administração como chefe do Poder Paralelo: “Estamos modernizando o tráfico. Realizamos algumas das mais arrojadas reformas que o tráfico jamais viu. O tráfico não vai parar, continuamos trabalhando dia e noite para recolocar o tráfico nos trilhos, em direção ao futuro”.

     Claro que o parágrafo acima é uma ficção. Certamente a reação seria de escândalo (a começar pela imprensa) se o indivíduo em questão declarasse algo dessa natureza.
   
     Desenhei essa cena de Teatro do Absurdo por analogia com o absurdo que vivemos na cena real: ninguém se escandaliza (muito menos a imprensa) ao ver o chefe do Poder Executivo, investigado por crimes que se estendem ao longo de, no mínimo, quatro anos (desde sua eleição até os recentes casos de suborno ativo e passivo) mentir na televisão dizendo que está modernizando o país. Além da mentira explícita (pois tudo que se discute hoje, no Congresso, é “como escapar da Lava-Jato”), alguém envolvido em crimes de tal envergadura não tem condições de modernizar nem o banheiro de sua casa.

    Não é difícil, no entanto, compreender a razão de tal ausência da capacidade de se escandalizar. É que todo o discurso oficial dos chamados “formadores de opinião” se concentra em fantasias semelhantes de modernização, reformas e futuro. O discurso acrítico, que repete a necessidade de reformas e associa tais reformas a uma suposta modernidade que alicerçará um suposto futuro, mantém todos antenados: os especialistas da imprensa e do meio acadêmico com os corruptos dos Três Poderes. É como se fosse possível decupar a atuação de Michel Temer, assim como a do Congresso, de forma bem esquizofrênica: como políticos, são corruptos; como administradores, podem conduzir o país ao “futuro”, através de “reformas” essenciais para o país não “quebrar”. Como se fosse possível qualquer tipo de legislação ser levada a sério com ESTE congresso e com ESTE presidente.    

     Não vou repetir aqui que a reforma da Previdência é um achismo que não encontra respaldo nos números, nem que a reforma trabalhista é um oportunismo inventado pelo grande empresariado, nem que qualquer reforma política séria é impossível com um congresso vendido. A “inteligência” dos jornais, revistas e institutos continuará repetindo o velho bordão do “reformar hoje para não precisar reformar amanhã”. Só que este discurso não está apoiado sobre nenhum dado concreto. Apoia-se apenas  no velho vício cultural do Brasil do futuro, do gigante adormecido, do amanhã que virá. Não nos preocupamos com o “hoje”, o Brasil sempre tem tempo.

    Vou repetir apenas o que todos também já sabem: que não existe crise, existe crime; que o país não está quebrado, está roubado; que o dinheiro que falta em todo lugar está em contas no exterior e em malas entregues em pizzarias.

     Nossa imprensa, nossa “inteligência”, nossos “especialistas”, gostam de posar de moderados. Assistem ao maior desvio de dinheiro público da história alisando o queixo, como quem analisa uma nova espécie de cogumelo. Enquanto isso, papagaiam como autômatos o discurso da “crise”. Esqueçam o futuro, meus caros. Esqueçam a modernidade. Com o tamanho do roubo institucional, se não recuperarmos nossa capacidade de reagir firmemente a escândalos, não haverá “amanhã” para “reformar”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário