UM TANTO ATRASADO, NEM POR ISSO MENOS IMPORTANTE, O SEGUNDO ARTIGO SOBRE A FARSA INTITULADA "REAGE RIO".
RESPOSTA AO REAGE RIO – 2ª. parte
por Fernando Lomardo, O Apontador
A capa do caderno especial ReageRio
estampa em meia página a bela foto de uma cativante menina de 11 anos com um
violino que ela vem aprendendo a tocar em um projeto de inclusão. É o chamariz
para a contrapartida social supostamente envolvida no conjunto de medidas
ventiladas pelo ReageRio.
O projeto das UPPs prometeu a mesma coisa.
Hoje seu criador controla o butim a partir da penitenciária de Bangu, via
Adriana Ancelmo, que continua em casa por benemerência de Marcelo Bretas.
Ou seja, a situação se repete. Apesar do
esforço da polícia e de outras forças de segurança em conter o domínio e a
violência do crime organizado, os demais braços do estado não se apresentam
para dar conta das necessidades de infra-estrutura e bem estar social das áreas
ocupadas. O que ninguém comenta é que essa ausência é de responsabilidade de um
estado que, como nos mostram os últimos anos, é omisso de forma intencional. Ou
seja, jornalistas e “especialistas” ficam no óbvio de afirmar o que é
necessário, sem que se proponha de que maneira realizá-lo. E essa maneira passa
pela esfera judicial, pois demanda prisão de criminosos e cassação de mandatos.
Voltaremos a esse ponto na conclusão da série.
A primeira página do caderno, após a bela
foto de capa, segue pelo óbvio ululante regado a frases de efeito: “O Rio não
quer mais chorar as mortes brutais de suas crianças (...) Não aceita que a
corrupção roube recursos da educação e da saúde”. E promete justiça a cavalo: “Mergulhado
na maior crise de sua história, o Rio reage”. Ou seja, o jornal acredita que o
seminário que ele mesmo promove já é a reação. Simples e mágico assim.
A página 2 tem como título “Não é de hoje
que o Rio e seus cidadãos superam obstáculos”. No entanto, entre as várias
referências da página, a única ação efetiva de superação de um obstáculo é a
famosa Ação Contra a Fome do Betinho (Herbert de Souza, o “irmão do Henfil”).
As outras imagens e textos são sobre eventos ou monumentos: Feira da
Providência, Cristo Redentor, blocos de carnaval. Há também uma menção à
“tomada do Complexo do Alemão” em 2010 – mas basta ver como está de novo o
Alemão, já há uns dois anos, para ver se há alguma superação nisso. Aliás,
perguntar não ofende: por quê não colocaram, na época, alguns ônibus
penitenciários para levar aquela cambada de bandidos que fugiu pelas tabelas
com transmissão de TV e tudo? Aquilo não era um flagrante? Estavam fugindo de
quê? Bem, o tempo nos mostrou que, de fato, o espetáculo era o único objetivo.
Mas o mais interessante nas páginas 2 e 3
são suas epígrafes, as frases-chave que estampam o ideário de quem as proferiu
e de quem articula esse movimento renovador. Nas duas páginas, as epígrafes
falam no futuro: “fazer um futuro promissor” e “não perdemos o futuro” expõem a
incapacidade brasileira de pensar no presente e torná-lo concreto e o eterno
comodismo que permite sempre jogar as coisas para amanhã.
As frases bonitas continuam na página 4: “...democracia
é uma construção coletiva”, pensamento que joga mais uma vez a responsabilidade
sobre o cidadão, no melhor estilo “faça a sua parte”, sem mencionar que as
autoridades públicas brasileiras, intencionalmente, não fazem a sua.
A página 5 é um anúncio de página inteira:
Souza Cruz.
Na página 6, o coronel Ubiratan Guimarães
informa que, desde 1992, dois outros projetos de ocupação de territórios
conflagrados também falharam exatamente no mesmo ponto em que falharam as UPPS:
a efetivação do apoio social e sócio-educativo após a intervenção policial.
Essa renitente ausência do estado corrobora a versão da intencionalidade da
omissão: o poder público (vale dizer, seus governantes: Pezão, Dornelles,
Cabral, Garotinho, Paes, Crivella, Picciani, Maia e tantos outros antes deles)
não é ausente por incompetência. É ausente porque quer ser. O motivo? Nenhuma população pode se mobilizar contra
desmandos político-econômicos se está o tempo todo fugindo dos assaltos e das
balas achadas.
Mas não desanimem, pois o “o
produto Rio é um ativo incrível”. A marca “RIO” agrega valor. O Rio é
um balcão de negócios, e o ReageRio está aí para provar isso: na página 7, mais
um anúncio de página inteira, desta vez da Oi, a operadora que conseguiu “falir”
sendo dona de mais de 50% das concessões de telefonia do país.
Nas páginas 8 a 15, muito blá-blá-blá
sobre segurança. Os clichês se avolumam em expressões como “sair da zona de
conforto”, “valorizar a cultura carioca” ou “é preciso discutir o tamanho do
estado”. Parece não ocorrer mesmo a ninguém que o problema está na
Criminalidade de Estado, aquele volume ainda imensurável de crimes praticados
pelo próprio estado. Não ocorre a nenhum “especialista” que o problema não está
em quanto o estado custa, mas sim em quanto
o estado desvia. Sem contar que,
quando se fala de custo do estado, está se falando sempre de salário de
servidores e previdência. Ninguém fala no custo de salários de parlamentares,
vereadores e governadores, cargos comissionados, verba de gabinetes, mordomia
de parlamentares, custo do judiciário-tartaruga, etc.
O blá-blá-blá é tão extenso quanto caiba
em 4 páginas. Afinal, das 8 páginas aqui compreendidas, 4 são, mais uma vez, de
anúncios. Não é uma maravilha para o grupo O Globo-Extra discutir segurança com
tantos anunciantes? Nas páginas 12-13 (a folha dupla central do primeiro
caderno ReageRio), duas páginas inteiras são pagas pela Fecomércio. Na página
15, já que o assunto é segurança, o anúncio estampa um slogan otimista: “POR UM
RIO MAIS SEGURO”. E de quem é esse anúncio? Da CNseg, a Confederação Nacional
das Empresas... de Seguros! Entendeu?
Mas o melhor de todos é o anúncio da
página 9. Simplesmente um anúncio de página inteira... do GOVERNO DO ESTADO!
O quê?!? Mas o Estado do Rio não está sem
dinheiro? Quem foi que te falou? O Estado “não tem” dinheiro para pagar o seu
salário, trouxa. Vê lá se o Pezão e os deputados estão sem receber. É isso
mesmo, o Estado que não tem dinheiro para pagar servidores, não tem dinheiro
para pagar aposentados, não repassou o mínimo constitucional para a Saúde, não
tem dinheiro para aparelhar a polícia, “precisou” vender a CEDAE, esse mesmo
estado tem dinheiro para o spa do Pezão, tem dinheiro para o jatinho do Pezão e
tem dinheiro para... anúncio.
Sim, anúncio.
Anúncio de página inteira.
Anúncio de página inteira num caderno
especial.
Anúncio de página inteira num caderno
especial do maior jornal do país.
Pra isso tem dinheiro.
Reage, Rio.
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